Lisca é apresentado no Santos

A última frase dita por Lisca em sua coletiva de apresentação no Santos, nesta quinta-feira, resume bem o tom da primeira entrevista do treinador no novo clube.

– Não rasgo dinheiro, não como grama e vocês não vão me ver nu na praia de Santos – ele avisou ao ser questionado se manteria o apelido de Doido no Peixe.

Em cerca de uma hora de entrevista, Lisca fez de tudo. Deu declarações fortes, contou histórias, imitou a voz de outros treinadores (como Cuca e Mano Menezes), tirou risadas dos jornalistas presentes. Acima de tudo, deu sinais de estar orgulhoso do novo momento na carreira, definido por ele como “uma evolução enorme, gritante”.

– É uma evolução enorme, uma oportunidade de ouro, um clube que dispensa comentários, a dimensão que o Santos tem é regional, é nacional, é sul-americana e é mundial. O Santos se confunde com a história do futebol brasileiro. (…) É um orgulho enorme, um momento especial da minha carreira. Tive orgulho de trabalhar em todos os clubes por que passei, todos têm sua grandeza. O Sport é um clube gigante também, um clube de dimensão muito grande.

– A evolução é gritante. Hoje, o Santos está na Série A, é um time que projeta muitos profissionais. Tenho certeza de que (um dia) vou sair do Santos, não sei quando, então pretendo aproveitar ao máximo possível.

O novo comandante do Peixe falou com a imprensa no começo da tarde, pouco depois de comandar o primeiro treinamento com o elenco. Ele foi anunciado na quarta e à noite foi à Vila Belmiro assistir à vitória por 2 a 0 sobre o Botafogo.

Em sua apresentação, falou sobre a saída do Sport após apenas três semanas. Segundo Lisca, a diretoria do clube pernambucano o proibiu de se despedir dos jogadores. O clima azedou durante o jogo contra o Vila Nova, quando a torcida passou a hostilizá-lo diante da notícia de um acerto com o Santos.

– Queria aproveitar e mandar um abraço para todos os jogadores do Sport, porque fui proibido de ir lá me despedir. Saiu que eu faltei ao treino, mas não é verdade. Não pude ir me despedir. Todos me ligaram, praticamente. Foi muito legal o trabalho, e eles sabem.

– Durante o jogo, surgiu a notícia de que eu já estava acertado com o Santos. E como a torcida do Sport gosta muito de mim, gosta muito do meu trabalho, e a gente estava fazendo um trabalho muito legal, ficou revoltada pela minha saída. E reagiu de uma forma que eu não esperava. Esperava que eles cantassem “fica, Lisca”, e eles cantaram “vai, Lisca”. Me agrediram, me jogaram um monte de cosia, minha família estava, minhas filhas se assustaram.

Segundo Lisca, o clima durante seu último jogo pelo Sport ajudou a definir a saída do clube. Mas ele admite: rumaria para o Santos de qualquer forma.

– A atitude, como aconteceu durante o jogo, obviamente facilitou minha decisão. Não vou negar: eu viria de qualquer jeito, era uma definição minha. Mas eu precisava conversar com a diretoria do Sport, e eu não tinha passado para a diretoria do Santos essa situação por respeito ao Sport, aos jogadores e à diretoria. Quando chegou tudo aquilo, falei: “Bom, agora ficou inviável, vou conversar com a diretoria do Santos”. Mesmo assim, eles insistiam, queriam que eu ficasse. Depois, acho que o presidente gosta muito de mim. Eles ficaram chateados, cara. Até achei que ele passou um pouco, mas vou respeitar. Quero aproveitar e mandar um beijo ao presidente Yuri Romão, agradecer a ele pela oportunidade. Mas nossa vida é assim, houve uma situação que saiu do controle. Optei, por gestão de carreira, a dar esse passo a mais no Santos, sem menosprezar jamais o Sport. Quem sabe um dia eu possa retornar para lá.

Lisca na apresentação no Santos — Foto: Ivan Storti/Santos
Lisca na apresentação no Santos (Foto: Ivan Storti/Santos)

Futuro no Santos

Lisca brincou sobre o tempo de permanência nos clubes que treinou. E garantiu:

– Nós não somos a Europa, em que o Klopp fica cinco anos para ganhar um título. Me deixa aqui cinco anos. Se tu me deixar aqui cinco anos, isso aqui vai voar, véio. Mas sei que não vou ficar cinco anos.

O treinador também falou sobre o futuro no Santos repetidas vezes.

– Vou aproveitar ao máximo todo momento. Só aprendemos a viver quando aceitamos a morte. Todo mundo vai morrer aqui, sinto dizer. Não adianta guardar muito, que no caixão não dá para levar. Vou aproveitar ao máximo. Em uns (clubes) eu fico mais, em outros menos. Vou aproveitar ao máximo. Pretendo ficar até o fim de 2023, mas a vida de treinador é agitada. Antigamente, ficava louco. Hoje vejo com naturalidade.

O técnico deu sua visão inicial sobre o time do Santos. Para ele, há muito a evoluir.

– Eu já vinha acompanhando o Santos. Desde aquela outra vez (em que o Santos fez uma proposta, quando ele estava no América-MG), a gente começa a acompanhar mais de perto. Gostei muito do resultado, mas ficou bem claro que não controlamos o jogo. Gosto de jogar futebol zonal. As referências do meu time são bola, espaço, companheiro e adversário. O Santos é muito fixado no adversário, e o adversário às vezes nos manipula. O que vem primeiro? Atacar ou defender? É a mesma história do ovo ou da galinha. Já comecei a introduzir alguns conceitos – disse Lisca.

– Tem muita coisa para trabalhar, e isso me motivou muito para vir para cá. Temos jogadores com potencial, mas não temos uma equipe forte coletivamente. Fomos efetivos (contra o Botafogo) porque temos um centroavante diferenciado (Marcos Leonardo). Quero potencializar as individualidades deles com um coletivo forte. Quero que eles joguem não por intuição, mas por intenção.

Lisca chega ao Santos com o auxiliar técnico Márcio Hahn e o preparador físico André Volpi. Agora, terá sua primeira experiência treinando um dos clubes grandes de São Paulo.

Lisca teve seu nome aprovado pelo Comitê de Gestão do Santos na segunda-feira e pode estrear já no domingo, contra o Fortaleza, na Arena Castelão.

Quem é Lisca?

Luis Carlos Cirne Lima de Lorenzi, o Lisca, tem 49 anos, é nascido em Porto Alegre e teve seu início de carreira ligado ao Internacional.

Depois de deixar a base do Colorado, tornou-se técnico de times profissionais e rodou o Brasil, ganhando projeção nacional principalmente na passagem pelo Ceará, entre 2015 e 2016, quando livrou o clube do rebaixamento à Série C.

Em 2016, voltou ao Inter para breve passagem na reta final do Brasileirão daquele ano, quando o clube acabaria rebaixado à Série B. Nessa época, trabalhou com Newton Drummond, o Chumbinho, contratado recentemente para ser o diretor executivo de futebol do Santos.

Após passagens por Paraná, Guarani, Criciúma e novamente Ceará, dirigiu o América-MG, onde fez o melhor trabalho de sua carreira: em 2020, levou o Coelho às semifinais da Copa do Brasil e carimbou o acesso à Série A para 2021. Antes do Sport, ainda dirigiu o Vasco.

Conhecido como “Lisca Doido”, é marcado também por frases de efeito e pela relação próxima com os torcedores dos times que dirige.

Fonte: G1