Elize Matsunaga tem tratamento de celebridade em documentário da Netflix

Condenada pelo assassinato do marido, Elize Araújo Kitano Matsunaga escolheu o melhor momento e forma para dar sua primeira e longa entrevista exclusiva e seu nome acabou virando título de seriado. Na série documental Elize Matsunaga- Era uma vez Um Crime, que acaba de estrear na Netflix, ela se apresenta como viúva e é tratada como uma celebridade. O documentário tem um apurado senso estético; no entanto, sob o ponto de vista da ética, desperta alguns questionamentos.

O crime aconteceu em maio de 2012. Elize era então casada com Marcos Kitano Matsunaga, milionário da família fundadora e presidente da indústria de alimentos Yoki, e com quem tinha uma filha, ainda de colo. Ela confessou a autoria do assassinato, o esquartejamento e ocultação do corpo. Em um julgamento de grande repercussão, foi sentenciada a 19 anos e 11 meses de prisão. Depois houve um recálculo da pena e ao fim ela cumprirá 16 anos e três meses de reclusão.

Por conta do regime de progressão da pena para o semi-aberto Elize Matsunaga ganhou direito às chamadas saidinhas do presídio feminino  de Tremembé/SP por determinados períodos ao longo do ano. Nessas ocasiões, a partir de 2019, ela participou das filmagens do documentário que agora estreou.

Seu depoimento é captado sob uma luz que é favorável à pele boa e alva e aos cabelos loiros, num fundo preto. Desta mesma forma já apareceram  alguns dos superstars de Hollywood num programa de entrevistas famoso, o Inside the Actor’s Studio.

Porém, não é só o tratamento no estúdio. Nas cenas externas, vemos a ida de Elize Matsunaga ao cabeleireiro, a um shopping, suas orações diante das velas em alguma igreja, uma caminhada numa trilha bucólica, os encontros com as mulheres da família.

Mais do que uma humanização da entrevistada, o documentário acaba por criar, progressivamente, uma atmosfera quase positiva em torno da dela. Os elogios e depoimentos emotivos favoráveis lembram quadros da televisão como o Arquivo Confidencial, de celebridades no Domingão.

Por mais que o advogado famoso da acusação, contratado pela família de Marcos Matsunaga; o promotor, o delegado, o médico legista e os amigos da vítima falem sobre a frivolidade do crime, há sempre em seguida algum contraponto destacando algo favorável sobre Elize Matsunaga.

História de cinema

A história de uma mulher bonita que se casa com um milionário e depois o mata alegando ciúmes por uma traição é muito midiática; é praticamente cinematográfica. Tanto que, da época do crime até o julgamento, o caso ocupou de forma massiva os telejornais e noticiários. Num país violento como o nosso – o Brasil tem número de assassinatos anuais superiores a países em guerra – crime passional vira um show, um prato cheio para tabloides e telejornais sensacionalistas.

A série documental em quatro episódios é rica em detalhes da vida do casal, com fotos e vídeos do casamento, das viagens internacionais. Elize Matsunaga tinha o que se convenciona chamar “vida de princesa”. Há ainda as descrições dela sobre a excentricidade das caçadas e os gostos conjuntos por coleção de armas e empalações de animais que ambos cultivavam.

Em alguns momentos, a produção também recria em forma de dramatização alguns momentos dos relatos.

Há muitas imagens de arquivo, como dos noticiários da época que, à falta de um narrador, acabam descrevendo o caso. Está ali também a reconstituição da cena do crime feita pela polícia e os depoimentos durante a sessão do julgamento—os únicos momentos em que familiares (o irmão e uma prima) da vítima falam sobre o caso.

Sem novidades

Encarcerada desde poucos dias após a confissão do crime, Elize Matsunaga já cumpriu mais da metade de sua pena. Entretanto, não há qualquer fato novo a respeito do episódio neste documentário, que não se pretende investigativo. Em O Caso Evandro, do Globoplay, por exemplo, a linha mestra da série é a investigação jornalística, que acabou por trazer novidade para o caso.

Aqui, não há nada nos depoimentos de Elize Matsunaga que aparentemente possibilite uma reabertura do caso ou pedido de novo julgamento. Pelo contrário, o roteiro até destaca algumas das lacunas não preenchidas do processo, como por exemplo: o fato de Elize ter viajado por horas antes de se desfazer das partes do corpo do marido, o fato de ela ter sido abordada pela polícia na estrada quando carregava as partes do cadáver do marido, a possibilidade de ter tido ajuda para carregar e despedaçar o corpo, a ausência de câmeras para registro na garagem do prédio na noite do crime.

Elize Matsunaga conta ter sido vítima de assédio sexual por parte do padrasto na sua adolescência dentro de casa. Ela não dá detalhes sobre sua mudança para São Paulo – ela é natural de Chopinzinho,/PR–, nem sobre sua vida e trabalho antes de se casar. O documentário indica que ela foi garota de programa, mas também que tinha formação para enfermeira e estudou Direito.

Tampouco fica claro se Elize Matsunaga tinha acumulado algum patrimônio próprio, como pagou sua defesa e como tem advogado que a acompanha até hoje. Não há no roteiro transparência sobre como ocorreram as negociações para a realização da entrevista e como se construiu o documentário.

Olhar feminino

De toda forma, a personagem de um crime real está cercada de sororidade. O olhar feminino vai além da estética, vai além do cabelo bem arrumado e colorido e das unhas bem feitas com que a condenada se expõe. A série tem direção de Eliza Capai e foi produzida pela Boutique Filmes para a Netflix.

A maior parte dos depoimentos em prol de Elize Matsunaga, à exceção do seu advogado de defesa durante o processo, é dada por mulheres: uma advogada (que diz que o julgamento foi “extremamente machista”), a tia, a jornalista investigativa. Foram registradas cenas de emoção no encontro entre ela e a avó.

Há muitos fãs de documentários sobre crimes passionais, um tema bastante sedutor para as grandes plateias. Tanto que se trata de um gênero de programação que prolifera na TV aberta e em canais por assinatura, que carregam em drama e nas cores fortes. O dilema é quando se romantiza qualquer crime a sangue frio. Mesmo porque há neste momento uma criança órfã de pai e que não pode ver ou ser vista pela própria mãe.

Fonte: Observatório da TV

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