Crianças colocam desenhos à venda por R$ 0,50 no portão de casa e brincadeira se torna ‘negócio’

A iniciativa de duas crianças de Bauru (SP) de vender na rua seus desenhos feitos durante uma brincadeira de férias, aliada à decisão de um motorista de ônibus que passava pelo local de comprar os desenhos e registrar o fato em vídeo, encontrou na internet o terreno ideal para que a história rompesse as fronteiras de um bairro da zona norte da cidade.

Em poucos dias, o vídeo postado pelo motorista Edivaldo Alves Geovani, o Montanha, mostrando ele parando o ônibus que dirigia e comprando – e encomendando – desenhos às duas crianças, alcançou até este sábado (24) mais de 2,4 mil compartilhamentos e cerca de 46 mil visualizações. 

A história começou quando Lukas Gabriel, de 11 anos, e sua irmã, Sophia Vitória, de sete anos, foram incentivados pela mãe a largar um pouco o celular durante as férias e buscar algo diferente como passatempo.

A recuperadora de crédito Beatriz Melo de Oliveira Ferreira, 34 anos, adaptou uma velha caixa de papelão como mesinha e deu papel e lápis aos filhos para que ambos fizessem desenhos – atividade que já era uma paixão de Lukas.

Com um “acervo” já pronto, o garoto teve a ideia de vender os desenhos na rua, pendurando as folhas no portão de sua casa, na Vila Dutra, e definindo como preço o valor de R$ 0,50 por exemplar de cada desenho.

Lukas durante a venda de um de seus desenhos para mulher que passava pelo local — Foto: Arquivo pessoal
Lukas durante a venda de um de seus desenhos para mulher que passava pelo local — Foto: Arquivo pessoal

“O Lukas sempre gostou de desenhar, já tem alguns quadrinhos, tem facilidade, vê e desenha. A Sophia está acompanhando ele. Começaram a desenhar e ele disse que podia vender os desenhos por R$ 0,50. Não botei muita fé, ficaram um dia inteiro com os papeis pendurados no portão, até que uma senhora comprou dois deles por R$ 2”, relembra a mãe das crianças.

A história mudou de rumo na última terça-feira (20), depois que o motorista filmou a aventura das crianças, comprou dois desenhos, encomendou outro, de um ônibus, seu instrumento de trabalho, e postou o vídeo naquela mesma noite. Edivaldo lembra que a viralização foi “acidental”, pois, segundo ele, normalmente só faz postagens para seu círculo de amigos.

“Quando percebi que muita gente estava vendo o vídeo foi que notei que ele estava publicado no modo ‘público’, algo que nunca faço. Me assustei e no dia seguinte, logo cedo, fui à casa das crianças e contei o fato à mãe, pedindo autorização dela para a publicação. Fiquei com medo que ela achasse que eu estava explorando seus filhos. Ela autorizou e o resto da história todos viram”, explica Edivaldo “Montanha”.

Com o vídeo viralizado, o que começou como uma brincadeira virou praticamente um empreendimento, com muitos internautas entrando em contato com as crianças, via redes sociais da mãe, para comprar e encomendar desenhos.

Lukas e Sophia ganharam vários presentes de fãs da internet, entre eles um kit de desenho, com papel sulfite e caixas de lápis de cor — Foto: Arquivo pessoal
Lukas e Sophia ganharam vários presentes de fãs da internet, entre eles um kit de desenho, com papel sulfite e caixas de lápis de cor — Foto: Arquivo pessoal

Segundo Beatriz Ferreira, ela notou que o “negócio” estava crescendo quando uma mulher de São José do Rio Preto entrou em contato para encomendar um desenho (ela queria na imagem uma abelha e um pote de mel) e aceitou receber sua encomenda e fazer o pagamento de forma virtual.

Porém, ao contrário do valor de R$ 0,50 cobrado, a mulher fez uma transferência, via PIX, de R$ 10. Já houve casos em que internautas pagaram até R$ 20 pelos desenhos.

Além das encomendas, as vendas cresceram na porta de casa e todo o valor arrecadado vai para a conta do pai, que ao final do dia faz o saque e leva o dinheiro para ser guardado em um cofrinho. A família não revelou o que já foi arrecadado.

Nova mesinha

Inicialmente, as crianças planejavam usar o lucro com a venda dos desenhos para comprar brinquedos com os quais sonhavam, como um “fidget toy”, um artefato de apertar bolinhas vendido como brinquedo e que virou modinha entre as crianças.

Os irmãos na caixa de papelão improvisada como mesa; lucro das vendas será destinado à compra de uma mesinha de verdade — Foto: Arquivo pessoal
Os irmãos na caixa de papelão improvisada como mesa; lucro das vendas será destinado à compra de uma mesinha de verdade — Foto: Arquivo pessoal

Também começaram a chegar à casa da família presentes oferecidos por pessoas que se emocionaram com a história nas redes sociais. As crianças já ganharam um kit de desenho, com pacote de papel sulfite e caixas de lápis de cor, por exemplo. O próprio brinquedo sonhado, o tal de “fidget toy”, também chegou como presente.

“As crianças estão muito felizes com a repercussão e com os presentes. Além disso, tudo isso também serviu para unir a família em torno da atividade”, explica a mãe.

Como o brinquedo sonhado incialmente já chegou na forma de presente, a mãe das crianças explica que a nova meta estabelecida pelos desenhistas é usar o lucro das vendas para melhorar o “empreendimento” com a compra de uma mesinha para desenhar. Segundo ela, a caixa de papelão adaptada como mesa já está se deteriorando.

‘Projeção do meu sonho’

O motorista Edivaldo Giovani no dia da gravação do vídeo e com o filho de 14 anos: "Temos de acreditar em nossos sonhos" — Foto: Arquivo pessoal
O motorista Edivaldo Giovani no dia da gravação do vídeo e com o filho de 14 anos: “Temos de acreditar em nossos sonhos” — Foto: Arquivo pessoalhttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

O motorista de ônibus Edivaldo Geovani explica que a decisão de registrar a aventura das crianças teve uma motivação pessoal que ele definiu como “uma projeção” de seus próprios sonhos.

Pai de um garoto de 14 anos, o motorista conta que também gosta de desenhar e que colocou no papel o projeto de um barco e de um carro que ele afirma querer construir. No entanto, quando mostrou o desenho a amigos, teria virado alvo de piada.

“Quando vi aquela cena, com os desenhos à venda, pendurados no portão, com plaquinha de vende-se, já foi passando um filme na minha cabeça. Me lembrei de quando fiz os meus desenhos com meu filho e que foram motivo de piada. Daí, me coloquei no lugar daquelas crianças e não quero que elas passem o que eu passei, elas têm de acreditar nos seus sonhos. E essa situação foi como uma projeção de meu próprio sonho”, disse o motorista.

O barco que o motorista está construindo em sua casa com base em um desenho feito por ele mesmo (no detalhe) — Foto: Arquivo pessoal
O barco que o motorista está construindo em sua casa com base em um desenho feito por ele mesmo (no detalhe) — Foto: Arquivo pessoal

Segundo Edivaldo, que já está em fase final da construção do barco que ele mesmo desenhou, o sonho de construir o carro projetado com seu desenho é um projeto que ele pretende manter vivo, apesar da gozação dos amigos.

“A gente tem de acreditar na gente. Essas crianças acreditaram que iam vender seus desenhos e, naquele momento, quis mostrar que as coisas podem ser diferentes do que já eu passei. Achei legal, nessa pandemia, todo mundo dentro de casa jogando videogame, e o menino já querendo virar empreendedor junto com sua irmã. Aquilo mudou o meu dia”, disse.

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