Botucatu: Professor da Unesp avalia efeitos do isolamento na quarentena. “As pessoas estão entrando em uma conduta mais agressiva”

A determinação para que as pessoas permanecessem em casa a fim de evitar a disseminação do coronavírus foi acompanhada por um forte senso de coletividade e solidariedade. Porém, passados 50 dias, este comportamento passou a dividir espaço com um cenário de rivalidades mais afloradas.

Quem analisa este e outros efeitos do longo período de quarentena é o professor do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu, Adriano Dias. Ele também coordena no Brasil, por meio da Unesp, um estudo que envolve 26 países com o objetivo de investigar os impactos psicológicos provocados pela pandemia (veja, ao final do texto, como participar).

“Todos os lugares têm passado pelo mesmo movimento: uma tentativa de compreensão mais coletiva em um primeiro momento. Depois, as pessoas passam a ter um comportamento mais individualista, mais agressivo”, analisa ele, que também é PhD em epidemiologia.

Abaixo, Dias elenca os principais impactos sobre a saúde mental da população, destaca os motivos pelos quais a Covid-19 se diferencia das outras pandemias e alerta: a queda da adesão ao isolamento social poderá levar o Brasil a ter as maiores taxas de mortalidade do mundo.

Leia os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade:

Historicamente, o mundo já vivenciou algumas pandemias acompanhadas de quarentena. Quais efeitos psicológicos já foram detectados por conta do temor de contágio da doença e da mudança de rotina com restrição de mobilidade?

Adriano Dias – Tivemos pandemias e outras grandes epidemias, mas nenhuma com uma estrutura social e de trabalho correspondente à de hoje. Há 15 anos, por exemplo, não havia o trabalho remoto. Então, temos uma situação diferente agora. Mas claro que alguns impactos são esperados, como ansiedade, depressão, estresse, irritabilidade, falta de senso de coerência, duvidar das informações, mesmo que elas estejam vinculadas a fontes confiáveis.

Em muitos casos, a pessoa pode entrar em processo de negação e passar a não considerar a gravidade do problema?

Dias – Claro. É isso que a gente tem visto. Além de uma pressão do senso comum sobre aquilo que se tem evidência científica.

O senhor comentou sobre o diferencial de, agora, as pessoas poderem trabalhar por home office. O que esta possibilidade traz de implicações para a saúde mental das pessoas?

Dias – Eu, por exemplo, vejo o trabalho como um lugar para onde eu vou para executar uma atividade. Tenho muita dificuldade com o teletrabalho, trabalhar pelo celular ou em reuniões eletrônicas. É a sua rotina doméstica mesclada com a sua rotina de trabalho. É preciso ter disciplina e um ambiente adequado dentro de casa, o que nem sempre acontece. Esta dificuldade pode ser fonte constante de frustração.

O momento inicial da pandemia foi acompanhado de um forte senso de coletividade e solidariedade. Para o senhor, este sentimento está dando lugar, agora, a um cenário de rivalidades mais afloradas? Por conta do tempo prolongado de isolamento, isso já era esperado?

Dias – Sem generalizar o comportamento das pessoas, me parece que todos os lugares têm passado pelo mesmo movimento: uma tentativa de compreensão mais coletiva em um primeiro momento, mas, todas as vezes em que se sinalizou para uma abertura – gradual, total, setorizada, o que for -, as pessoas revertem este comportamento para tentar resolver os seus próprios problemas. Elas passam a ter um comportamento mais individualista, mais agressivo. Há uma reivindicação, por exemplo, do comércio para retomada das atividades. A gente entende que o isolamento pode provocar a demissão de empregados, o insucesso do negócio. Todo mundo entende isso, mas nada do que está acontecendo aqui difere do que aconteceu em outros países que enfrentaram a pandemia. A Suécia, por exemplo, manteve tudo aberto, confiou na disciplina do povo e teve uma taxa de mortalidade absurdamente maior do que os países vizinhos que fizeram o isolamento.

As perdas financeiras, a incapacidade de pessoas que ficaram desempregadas ou sem renda em honrar compromissos acaba por contribuir com essa resistência em manter o isolamento?

Dias – Não tenho dúvidas. Há um grande impacto na vida das pessoas. Os profissionais de saúde, os funcionários públicos continuam trabalhando. Mas, em contrapartida, a grande massa de pessoas não está trabalhando neste momento. Muitas encontraram novas maneiras de manter o seu negócio funcionando, via WhatsApp, por exemplo. Não sei qual é a resposta em termos de rendimento, mas pode ser que este modelo seja mantido por algumas empresas como uma opção mesmo depois da pandemia.

Os profissionais de saúde são um público bastante vulnerável para doenças mentais, ainda mais neste momento crítico. Diante de todo o estresse envolvido, a saúde não apenas mental, mas também física, fica em maior risco?

Dias – O trabalhador da saúde tem sua capacidade mental muito afetada pelo trabalho. E agora, em que ele é colocado nesta posição de linha de frente de combate à pandemia, sendo até aplaudido pela população nas sacadas, precisamos saber se esta situação protege ou agrava sua saúde mental. É uma resposta que ainda não temos. Mas, na China, os primeiros estudos já mostram que houve um comprometimento maior da saúde destes profissionais. O que a gente sabe é que, mesmo depois que tudo isso passar, eles continuarão trabalhando muito, sendo muitos exigidos e ganhando pouco.

Mas, neste momento, é evidente que eles estão ainda mais expostos ao estresse. Que tipo de repercussão isso pode trazer para o trabalho e a saúde mental destes profissionais?

Dias – Os quadros de ansiedade, depressão e estresse são óbvios. Lembrando que estes profissionais têm uma vida. Eles voltam para casa, onde vivem outras pessoas. Qual o grau de ansiedade de uma pessoa que trabalha na linha de frente da Covid-19 e mora com os filhos, o companheiro ou companheira, os pais? A família é envolvida diretamente na rotina de trabalho destes profissionais.

Além dos profissionais de saúde, aqueles que pertencem ao grupo de risco, como idosos e doentes crônicos, também são afetados de maneira particularizada? Tendem a sentir mais medo que os demais?

Dias – É claro que se sentem mais inseguros, mais ansiosos. Mas, antes de mais nada, é preciso fazer um alerta sobre a importância de não culpabilizar a vítima. Há uma tendência forte de passar a culpar quem ficou doente ou morreu, porque a pessoa era idosa ou obesa, porque era hipertensa ou tinha diabetes. Precisamos entender que o óbito por Covid-19 não é uma questão de fatalidade. As taxas de agravamento e mortalidade estão sendo determinadas pelo nível de isolamento da população. E as pessoas que não estão cumprindo o isolamento não se sentem responsáveis por isso. O que podemos dizer é que a evidência científica aponta que há uma probabilidade maior de agravamento quando, por exemplo, a pessoa é idosa, mas não significa que pessoas jovens não irão morrer. A vulnerabilização das pessoas tem um contexto. No Brasil, por exemplo, a taxa de óbito nas periferias tem sido infinitamente maior. Na Capital paulista, os moradores da Brasilândia morrem mais de Covid-19 do que os do Morumbi, por não terem o mesmo nível de proteção social contra a doença. Existem fatores sociais, econômicos e políticos que estão direcionando o Brasil para ter as maiores taxas de mortalidade do mundo.

Temos ouvido muito falar sobre “o novo normal”, ou seja, que não voltaremos mais a viver e pensar como vivíamos e pensávamos antes. A expectativa é mesmo essa?

Dias – Como eu disse, não temos nenhuma outra situação que possa ser comparada a esta pandemia. Há exemplos de epidemias passadas em que as pessoas retomaram a vida normal. Mas será que nesta situação que estamos vivendo, em que a recomendação é para as pessoas se isolarem, quando acabar o confinamento, elas irão retomar as atividades normalmente? Eu tenho dúvidas em relação a isso. Vai levar um tempo para entendermos como tudo vai ficar, mesmo quando acabar o período de isolamento. Nesta semana, por exemplo, a Espanha divulgou uma primeira rodada de uma investigação que eles estão fazendo. Ela aponta que tem aparecido um comportamento das pessoas de medo de sair de casa, que não está vinculada ao medo de adoecer, mas sim porque se habituaram a não ter contato social.

Durante este período de quarentena, o que é possível ser feito para minimizar estes impactos na saúde mental das pessoas?

Dias – A rede de suporte social é muito importante para garantir os suprimentos mínimos a quem precisa. Além disso, dentro de casa, as pessoas têm a possibilidade de manter contato com amigos e familiares por meio do celular, ligações de vídeo. A gente vê pessoas fazendo até comemoração de aniversário a distância, marcando para comer pizza e bater papo pelo computador. Essa rede de apoio é importante. Para quem precisa, também existem alguns serviços que disponibilizam números de telefone para prestar suporte psicológico. E há várias atividades que ajudam a manter a saúde mental, seja fazer exercícios físicos, montar um quebra-cabeça com os filhos, ler um livro ou qualquer outra coisa que cada pessoa goste de fazer.

Participe da pesquisa

Até agora, a equipe de pesquisadores que realiza o estudo no Brasil obteve cerca de 2,3 mil respostas ao questionário – que é relativamente longo, mas importante para colaborar com a definição, no futuro, de medidas que possam melhorar o bem-estar emocional e psicológico da população durante situações de crise como a que o mundo experimenta hoje.

Segundo o professor Adriano Dias, a meta é alcançar pelo menos 10 mil participantes no País. O questionário, que pode ser respondido por qualquer pessoa com mais de 18 anos, está disponível em https://cutt.ly/IMPACT_COVID-19_BRASIL.

O foco é investigar os impactos psicológicos que a pandemia tem causado nos profissionais da saúde e na população em geral. “Peço a colaboração dos leitores do JC para responder este questionário, para que a gente possa conhecer melhor esta situação e poder projetar menores impactos no futuro”, afirma o professor.

O projeto foi lançado há cerca de um mês na Espanha, por iniciativa da Universidade de Huelva e Universidad Loyola Andalucia. Atualmente, são 26 países da América, Europa e África envolvidos no levantamento. Cada um segue em diferentes etapas do processo, tendo como fator em comum a aplicação do mesmo questionário.

Fonte: JC Net