Botucatu: A Retomada pelo mercado internacional

A globalização da economia, intensificada no final da década de 1990, proporcionou oportunidades e nova dinâmica nos processos produtivos. Com parque industrial diversificado, agregando mais de 460 empresas, Botucatu tem na exportação de produtos manufaturados, agropecuários e tecnologia. Isso representa relevância no quadro da chamada balança comercial, que agrega o saldo entre exportações e importações. E  o município tem se consolidado no seleto grupo de pólos comerciais neste segmento.

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Comex), vinculada ao Ministério da Economia, Botucatu acumulou no consolidado de 2018/2019, US$ 201,06 em exportações, com predominância para produtos industrializados nos segmentos automotivo e alimentício. Neste contexto, 28 empresas são as que movimentam este fluxo de vendas a mercados como Estados Unidos (42%), Chile (15%), Peru (13%), Austrália (8,4%), África do Sul (5,9%) e Alemanha (1,3%).

Já as importações resultaram em US$ 34,4 milhões, fazendo com que a balança comercial no ano passado tivesse superávit de US$ 166,66 milhões. Com isso, Botucatu ocupa a 42ª colocação (ou 0,4% de participação)  no Estado como os maiores exportadores. Em âmbito nacional, essa posição vai para 179, levando em consideração todos os 5570 municípios brasileiros (nem todos, no entanto, possuem parque industrial e econômico direcionados para a exportação). Quanto às importações, Botucatu é o 97º no Estado (0,06% de participação) e o 323º no país que mais comprou do exterior. Venderam às empresas botucatuenses países como Espanha (27%), Suécia (19%), Alemanha (16%), Itália (9,5%), França (8,6%), China (6%), Estados Unidos (4,7%) e Ìndia (2,1%).

Das 32 empresas, algumas são prevalentes quanto ao papel de exportadoras, com destaque para Caio Induscar, Irizar, Embraer, Eucatex e a antiga Duratex, que ainda exerceu balanço nas exportações, mesmo com a incorporação da unidade fabril de Botucatu. Neste total, 31% do volume vendido ao exterior refere-se a carrocerias para automóveis (ônibus, em sua essência), totalizando US$ 62,73 milhões; seguida por peças e acessórios para veículos (27% do acumulado em 2019), gerando US$ 54,93 milhões. Ainda no levantamento, as vendas de ônibus representaram 15% do total das exportações para US$  29,55 milhões. Na sequência, painéis de fibra de madeira ou materiais de lenhosas foram responsáveis por garantir US$ 19,93 milhões (9,9%) do total exportado pelas empresas botucatuenses no ano passado.

Por outro lado, as importações feitas por empresas locais centraram-se em produtos destinados para a produção como chassis para produção de veículos, o que demandou US$ 9,48 milhões (28% do total. Também agregam as aquisições do exterior centros de maquinagem, máquinas diversas e para se trabalhar metais, com investimento de US$ 3,37 milhões, ou 9,8% do adquirido. Outros materiais vindos do exterior estão relacionados também a equipamentos eletrônicos, metalúrgicos, bem como materiais para construção.

O desempenho obtido no ano passado, no entanto, representa desempenho ao obtido no balanço de 2017/2018, quando as exportações botucatuenses totalizaram US$ 317,12 milhões e US$ 32,9 milhões, cujo saldo foi de superávit em US$ 284,22 milhões. Naquele período Botucatu era o 34º maior exportador do Estado (137º do país), o 105º em importações em São Paulo (340º no Brasil). Um detalhe a se destacar é quanto o número de exportadores, maior no período- 30 empresas- e a mesma quantidade de importadores.

Pela análise da professora  Silvia Angélica de Carvalho, especialista em economia do Departamento de Economia, Sociologia e Tecnologia da  Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, há uma seletividade quanto às exportações botucatuenses. Para a economista, isso ocorre porque as mais de trinta empresas que fazem este tipo de negociação já possuem tradição internacional. “As exportações botucatuenses estão muito focadas em poucas grandes empresas, com tradição internacional”, pondera a economista.

Segundo ela, o desempenho botucatuense esteve atrelado ao cenário político nacional, com influência direta pela turbulência do governo e, principalmente, na demora na aprovação de reformas de base como a da Previdência. “O fator mais expressivo para essa diferença entre 2018 e 2019 esteja relacionada ao cenário político nacional. As transações comerciais internacionais da economia botucatuense, assim como as do país como um todo, foram afetadas pela instabilidade política do primeiro ano do governo federal”, frisa professora Silvia.

Como as exportações demandam de um contexto integrado entre cenários nacional e internacional. Também foi preponderante a desvalorização do real frente ao dólar, que agregou divisas nos bens exportados, mas ao mesmo tempo geram encarecimento de compra. “As incertezas quanto a política interna e externa a serem adotadas e a grande instabilidade no valor do dólar, fizeram com que os compradores do Brasil no exterior, com reflexos na esfera estadual e municipal, ficassem mais cautelosos. Assim, mesmo com o valor do real sobrevalorizado em relação ao um dólar, a queda nas exportações foi importante. Neste cenário, perduram as exportações de empresas consolidadas, que possuem contratos mais longos, grandes empresas como Embraer, Irizar e Eucatex”, salienta a especialista.

Quanto ao fluxo cambial, com o dólar tendo valorização de 4,5% frente ao real em 2019, modificou o modo de operação de algumas empresas que, mesmo voltando suas atenções às vendas no exterior, passam a procurar matérias-primas no mercado interno o que, por vezes, não consegue suprir a demanda. “As empresas tendem a rever suas compras no exterior, substituir insumos e matérias-primas por produtos nacionais. Mas, mesmo diminuindo em volume importado, com o dólar mais caro, a importação dos produtos que não possuam similares nacionais, acabam pesando representando um custo maior para quem produz”, explica Silvia.

A busca por novos parceiros comerciais e, mesmo uma política local de estímulo às exportações podem ser saídas para que outras empresas tracem estratégias frente ao mercado. “Diversificar essa pauta envolveria uma política municipal que estimulasse as pequenas e médias empresas a se inserirem no mercado internacional. Há política federais já voltadas a isso, mas na grande maioria das vezes, as empresas desconhecem essa possibilidade. A exportação é uma opção importante inclusive porque estamos em um momento difícil da economia interna; vender para outros países representa uma forma interessante de manter a empresa em funcionamento e até crescer, diminuindo a dependência de um mercado único”, finaliza professora Silvia.

Foto: M&M Imagens

Jornal Leia Notícias – Flávio Fogueral