Você Sabia? Educador de Botucatu trocou cartas com Machado de Assis; conheça essa história

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Quem pode imaginar que um jornalista e educador que fez carreira em Botucatu, no final do Império, se correspondia com ninguém menos que Machado de Assis, apontado por especialistas como o maior nome da literatura no país?

Poeta e cronista, José Joaquim Pereira de Azurara viveu em Botucatu no princípio dos anos 1880. Ele conhecia bem a língua inglesa a ponto de, em 1875, ter elaborado a tradução de “A vida no casamento, seus deveres, suas provas e suas alegrias”, ensaio de autoria de W. B. Mackenzie. Nessa fase também escreveu “Contos de Paquetá”, “A Filha da Viscondessa” e “O Poder da Virgem e José, Filho de Israel”.

Tais escritos mereceram menção nas correspondências de Azurara para o célebre escritor Joaquim Maria Machado de Assis, a partir de 1870. Essas cartas para o “Bruxo do Cosme Velho” estão reproduzidas na Coleção Afrânio Peixoto, da Academia Brasileira de Letras, editada em 2009. No volume há cinco cartas do pioneiro do ensino em Botucatu, que integram o Tomo II da Correspondência de Machado de Assis, entre os anos de 1870 e 1889.

Dono de colégio e jornalista

É quase desconhecida a trajetória desse literato que é um dos pioneiros do ensino privado em Botucatu. Pouca gente dele se lembra hoje. De origem fluminense, o que o teria feito abalar-se da corte para o sertão paulista? Veio de Campos dos Goytacazes, iniciou sua carreira no Rio de Janeiro e terminou seus dias como professor em Iaras, há um século.

De concreto, sabe-se apenas que Azurara – de quem nem restou uma fotografia sequer – decidiu radicar-se na região, já no fim da monarquia. Em 1880, ele abriu o Colégio Azurara, que segundo Hernâni Donato, é o mais antigo de Botucatu. “Admitia alunos desejosos de algo mais do que o elementar e pretendentes a curso superior. José de Azurara, intelectual, mais tarde trocou ou acumulou a função de diretor de escola com a de diretor de jornal”, anotou o memorialista.

De fato, Azurara teria sido o primeiro redator da “Gazeta de Botucatu”, fundada em 1876 pelo imigrante italiano Miguel Tocci e pelo advogado Luís Augusto Tavares. Nesse período, segundo o pesquisador Olavo Pinheiro Godoy, o professor exerceu grande atividade na imprensa local.

Em 1885, embora tenha transferido a sua escola para Avaré, Azurara não rompeu os laços com Botucatu, conforme revelou em entrevista ao jornal “A Comarca de Avaré”: “Em 1890, poucos meses depois de proclamada a República Brasileira, fui trazido de Botucatu, onde residia e estava exercendo interinamente o cargo de promotor público, para Avaré a fim de assumir a redação do jornal A Victoria, do qual fui expulso dez dias depois de ter sido dado à luz de publicidade o seu primeiro número”, admitiu.

Isso mostra as andanças de Azurara e seus contratempos por conta da postura política no jornalismo. Em 1899, ele estava no Rio, onde era delegado de polícia, primeiro em Irajá e em seguida, em Jacarepaguá, segundo registros da edição anual do “Almanack Laemmert”.

A volta em definitivo para a região se deu na véspera do Natal de 1904, conforme nota do “Correio do Sertão”: “Vamos assistir ao reaparecimento do antigo Colégio Azurara que cerca de dezesseis anos tão bons serviços prestou à instrução da infância que, após longos anos de sensível ausência volta a Avaré”.

Novamente, seduzido pelo gosto da política, Azurara aceitou, em setembro de 1911, trabalhar na imprensa, quando obteve uma condecoração, comunicada por carta enviada pelo francês Henri Martinville, oficial da Sociedade Acadêmica de História Internacional, de Paris: a medalha de ouro com diploma em reconhecimento por seus trabalhos culturais.

Nos seus últimos anos o velho mestre atuou como provedor da Irmandade de Nossa Senhora das Dores, de Avaré, e deu aulas na escola do Patronato Agrícola de Monção, atual município de Iaras, enquanto publicava seus poemas no jornal “O Echo”.

Morreu em Avaré no dia 2 de julho de 1920, no Hospital da Casa Pia São Vicente de Paulo, atual lar de idosos. Foi sepultado no antigo Cemitério Paroquial, no Bairro Alto. “A sua morte foi lamentada principalmente entre seus antigos alunos, os quais podem ser apontados muitos homens de destaque do nosso meio social”, noticiou o jornal “O Município de Avaré”.

* Gesiel Júnior / Especial para Botucatu online

 * Cronista e pesquisador, é autor de 40 livros sobre a história da região e membro-correspondente da Academia Botucatuense de Letras

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