24 de fevereiro, 2026

Últimas:

Sinais encontrados na Alemanha podem ser forma de escrita com 40 mil anos

Anúncios

Uma análise computacional de mais de 3 mil sinais geométricos gravados em artefatos do Paleolítico Superior sugere que humanos da Idade do Gelo já utilizavam sistemas de sinais entre 34 mil e 45 mil anos atrás. Publicado nessa segunda-feira (23) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o estudo indica que sequências repetidas de pontos, traços, cruzes e entalhes não eram meramente decorativas, mas seguiam padrões estatísticos consistentes — comparáveis aos primeiros registros pré-cuneiformes da antiga Mesopotâmia.

Em vez de buscar decifrar o significado das marcas, a equipe se concentrou na análise da estrutura formal dos sinais. O linguista Christian Bentz, da Universidade de Saarland, e a arqueóloga Ewa Dutkiewicz, do Museu de Pré-História e História Antiga de Berlim, criaram um banco de dados digital com milhares de inscrições provenientes principalmente das cavernas do Jura da Suábia, no sudoeste da Alemanha.

Anúncios

“Há muitas teorias, mas até agora houve muito pouco trabalho empírico sobre as características básicas e mensuráveis desses sinais”, explica Bentz, em comunicado. Utilizando métodos de linguística quantitativa e modelagem estatística, os pesquisadores avaliaram frequência, previsibilidade e padrões de repetição das sequências.

O objetivo era identificar o que Bentz descreve como uma “impressão digital estatística” desses sistemas simbólicos. “A pesquisa está nos ajudando a revelar as propriedades estatísticas únicas — ou a impressão digital estatística — desses sistemas de sinais, que são um precursor inicial da escrita”, afirma o especialista.

Anúncios

A estatueta de Adorante da Caverna de Geißenklösterle, com aproximadamente 38.000 anos, consiste em uma pequena placa de marfim com uma figura antropomórfica e múltiplas sequências de entalhes e pontos. A aplicação dessas marcas sugere um sistema de notação, principalmente nas fileiras de pontos no verso da placa (Foto: Landesmuseum Württemberg/Hendrik Zwietasch)

Entre repetição e informação

A equipe aplicou o conceito de entropia, uma medida estatística da quantidade de informação que uma sequência pode carregar. Sistemas altamente imprevisíveis têm alta entropia, enquanto sistemas muito repetitivos, baixa entropia.

Os sinais paleolíticos situam-se em um nível intermediário. “Os sinais nos objetos arqueológicos são frequentemente repetidos — cruz, cruz, cruz; linha, linha, linha. Esse tipo de repetição não é uma característica encontrada na linguagem falada”, aponta Bentz.

A estatueta de mamute da Caverna Vogelherd, com aproximadamente 40.000 anos, apresenta múltiplas sequências de cruzes e pontos em sua superfície (Foto: Universität Tübingen/Hildegard Jense)

A estrutura identificada não corresponde à escrita moderna, que codifica diretamente a fala e apresenta maior variação simbólica. A comparação mais próxima ocorreu com a escrita proto-cuneiforme mesopotâmica, que data de cerca de 40 mil anos depois. Como destaca a revista Discover, a organização estatística das sequências paleolíticas é comparável à desses registros iniciais, que também não representavam a linguagem oral de forma direta.

“O ser humano desenvolveu a capacidade de codificar informação em sinais e símbolos ao longo de muitos milhares de anos. A escrita é apenas uma forma específica dentro de uma longa série de sistemas de sinais”, destaca Bentz. “Continuamos a desenvolver novos sistemas para codificar informação. A codificação também é a base dos sistemas computacionais.”

Complexidade variável

Os objetos analisados incluem estatuetas de marfim, ferramentas e pequenas esculturas encontradas em cavernas alemãs. Entre eles estão a figura do Homem-Leão e uma estatueta de mamute da caverna de Vogelherd, datada de cerca de 40 mil anos, que apresenta múltiplas sequências de cruzes e pontos, segundo descreve a revista Popular Science.

Tabuleta proto-cuneiforme do período Uruk IV (VAT 14774), com aproximadamente 3350-3200 anos. Esta chamada tablete numero-ideográfica apresenta sinais numéricos no lado esquerdo e ideogramas mais diversos no lado direito. A tablete é ainda dividida por uma linha horizontal (Foto: Staatliche Museen zu Berlin, Museu Vorderasiatisches/Olaf M. Tesmer)

Dutkiewicz lembra que esses artefatos eram frequentemente portáteis. “Eles eram artesãos altamente habilidosos. É possível ver que carregavam os objetos consigo. Muitos cabem na palma da mão. Essa é outra maneira pela qual os objetos são semelhantes às tabuletas proto-cuneiformes”, ressalta ela.

A análise revelou ainda diferenças internas: estatuetas tendem a apresentar maior densidade informacional do que ferramentas. Isso sugere níveis distintos de complexidade na organização dos sinais.

Reescrevendo a cronologia da comunicação

Os artefatos datam de um período em que o Homo sapiens havia se estabelecido na Europa há pouco tempo, e ainda coexistia com neandertais. Do ponto de vista cognitivo, os resultados indicam que esses grupos já possuíam capacidades simbólicas comparáveis às humanas atuais.

“Os artefatos remontam a dezenas de milhares de anos antes dos primeiros sistemas de escrita, ao período em que o Homo sapiens deixou a África, se estabeleceu na Europa e encontrou os neandertais”, explica Dutkiewicz.

Embora o conteúdo específico das sequências permaneça desconhecido, os pesquisadores são categóricos quanto à sua intencionalidade. Eles afirmam que as marcas não se tratam de decoração, mas padrões reproduzíveis e reconhecíveis dentro de um grupo social.

“Há muitas sequências de sinais a serem encontradas nos artefatos. Nós apenas começamos a descobri-las”, avalia Dutkiewicz. Se confirmadas por investigações futuras, as conclusões ampliam significativamente a linha do tempo da experimentação simbólica humana. A organização visual de informação pode ter antecedido em dezenas de milênios o surgimento formal da escrita, sugerindo uma continuidade histórica muito mais profunda na evolução da comunicação.

Tabuleta proto-cuneiforme do período Uruk V (VAT 15085), com aproximadamente 3500 a 3350 anos. Esta chamada tablete numero-ideográfica apresenta sinais numéricos no lado esquerdo e um ideograma representando um vaso de conteúdo desconhecido no lado direito (Foto: Staatliche Museen zu Berlin/Museu Vorderasiatisches/Olaf M. Tesmer)

Fonte: Galileu

Talvez te interesse

Últimas

Obrigatória desde novembro de 2025, a NFCom altera rotinas de emissão e faturamento em telecom. Provedores e operações móveis revisam...

Categorias