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Debaixo de até quase cinco quilômetros de gelo, a Antártica guarda uma paisagem pouco conhecida. Mas uma combinação inédita de dados de satélite e modelagem física permitiu revelar, com nível de detalhe sem precedentes, o relevo rochoso oculto sob a maior camada de gelo do planeta.
O avanço é resultado de um estudo liderado pela pesquisadora Helen Ockenden, da Universidade de Edimburgo e do Institut des Géosciences de l’Environnement, na França, publicado em 15 de janeiro na revista Science. A equipe aplicou uma técnica chamada Ice Flow Perturbation Analysis (IFPA), que usa observações detalhadas da superfície do gelo feitas por satélites e as leis que regem o escoamento do gelo para inferir como é o terreno abaixo dele.
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Embora a superfície gelada da Antártida seja relativamente bem monitorada, o mapeamento do que está sob o gelo sempre foi um desafio. Os métodos tradicionais dependem de levantamentos aéreos ou terrestres caros e esporádicos. “Nosso mapa IFPA do relevo subglacial da Antártica mostra que uma enorme quantidade de detalhes pode ser extraída a partir de observações de satélite da superfície do gelo”, escreveram os autores do estudo, especialmente quando esses dados são combinados com medições da espessura do gelo obtidas por pesquisas geofísicas.
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O novo mapa revelou feições geológicas até então desconhecidas ou mal definidas: canais profundos com encostas íngremes, possivelmente ligados a antigos sistemas de drenagem montanhosa, e vales em formato de U semelhantes aos esculpidos por geleiras em outras partes do mundo. Esses traços ajudam a reconstruir como era a Antártida antes de ser coberta por gelo, em um passado pré-glacial.
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Mais do que uma curiosidade geológica, esse conhecimento é crucial para o presente e para o futuro. A forma do terreno sob o gelo influencia diretamente a velocidade e a direção do escoamento das geleiras. Compreender essa dinâmica é essencial para prever quanto gelo a Antártica pode perder nas próximas décadas e quanto isso pode elevar o nível do mar global.
Apesar do avanço, o mapa ainda tem limites. A reconstrução consegue identificar feições em escala intermediária, entre cerca de 2 e 30 quilômetros. Formas menores continuam fora do alcance. Ainda assim, o trabalho oferece um guia valioso para pesquisas futuras. “Nossa classificação da paisagem e o mapa topográfico servem como referências importantes para direcionar estudos mais detalhados do relevo subglacial da Antártida”, destacam os autores, indicando onde e como novos levantamentos geofísicos devem ser feitos.
O momento é considerado estratégico. Em um artigo de perspectiva que acompanha o estudo, Duncan Young, do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas, lembrou que o Ano Polar Internacional de 2031 a 2033 será uma oportunidade-chave para esforços globais integrados. Segundo ele, campanhas futuras poderão combinar observações e modelagem avançada, guiadas por métodos como o desenvolvido por Ockenden e sua equipe.
Aos poucos, satélites ajudam a iluminar um continente que permanece, em grande parte, invisível — mas decisivo para o equilíbrio climático do planeta.

Fonte: Um Só Planeta