29 de abril, 2026

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Projeto britânico quer jogar sal no ar para frear o aquecimento global

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Pesquisadores da Universidade de Manchester desenvolveram uma tecnologia que borrifa névoa de água salgada em nuvens marinhas para aumentar sua capacidade de refletir luz solar e, com isso, reduzir o aquecimento global.

O processo, chamado de clarificação de nuvens, integra o projeto Reflect, financiado pela Agência de Pesquisa e Invenção Avançada do governo britânico (Aria) dentro de um programa de £ 57 milhões (cerca de R$ 385 milhões) que reúne 22 grupos investigando alternativas de alto risco e alto impacto para desacelerar as mudanças climáticas. As informações são do The Daily Mail.

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A base científica da abordagem é conhecida: nuvens formadas por gotículas menores são mais reflexivas do que as compostas por partículas maiores. Erupções vulcânicas de grande escala já demonstraram esse efeito ao injetar aerossóis na atmosfera, aumentar a cobertura de nuvens e derrubar temperaturas globais temporariamente. O mesmo fenômeno ocorreu de forma não intencional nas trilhas de fumaça deixadas por navios cargueiros movidos a diesel e está desaparecendo: a transição das frotas para combustíveis com baixo teor de enxofre, exigida por normas internacionais de controle da poluição marítima, tornou as nuvens sobre o Pacífico Nordeste e o Atlântico cerca de 3% menos reflexivas na última década, contribuindo para o aquecimento.

O projeto Reflect busca reproduzir esse efeito de maneira controlada, usando sal marinho em vez de poluentes. Dentro de uma câmara de aço inoxidável de três andares, os pesquisadores calibram o tamanho ideal das partículas: gotículas grandes demais tendem a substituir as partículas naturais da atmosfera, prejudicando a formação de nuvens; pequenas demais, não ativam o processo de condensação com intensidade suficiente.

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Testes ao ar livre em 2027

Se os experimentos laboratoriais avançarem conforme o planejado, a equipe prevê realizar o primeiro ensaio ao ar livre no Reino Unido dentro de dois anos. A proposta consiste em borrifar uma pluma de vapor salino por alguns minutos em uma área de alguns quilômetros ao largo da costa britânica. Drones e sistemas de radar seriam usados para monitorar a dispersão da nuvem de partículas e garantir que ela não se espalhe além do esperado.

O professor Hugh Coe, diretor do Instituto de Pesquisa Ambiental de Manchester e coordenador do projeto, explica quais são os limites da técnica. “A solução a longo prazo é não ter tanto carbono na atmosfera”, afirma. “O que a clarificação de nuvens faz é abrir um espaço para que as emissões sejam reduzidas — mas apenas se não conseguirmos avançar rápido o suficiente”.

A geoengenharia solar é uma das áreas mais controversas da ciência do clima. Críticos argumentam que essas abordagens oferecem pretexto para que governos e empresas posterguem cortes reais nas emissões, tratando sintomas sem combater a causa.

Os riscos científicos são igualmente significativos. Um estudo da Escola de Clima de Columbia apontou que a clarificação de nuvens aplicada no Pacífico Oriental poderia reduzir a amplitude do El Niño em até 61%, com impactos graves sobre padrões climáticos e precipitação ao redor do mundo. A injeção de aerossóis na estratosfera, por sua vez, poderia perturbar sistemas de monções tropicais e afetar os níveis dos oceanos, segundo pesquisa da mesma instituição.

A pesquisadora Ying Chen, especialista em clarificação de nuvens pela Universidade de Birmingham e não envolvida no projeto, resume o estado do campo: alterar a irradiação solar em um ponto do planeta pode provocar mudanças nos padrões atmosféricos em outros, mas a magnitude desses efeitos ainda é desconhecida.

“Mais pesquisas são urgentemente necessárias”, afirmou ao Daily Mail.

O professor Coe não contesta a possibilidade de interferência no clima. Seu argumento é outro: diante de emissões que ainda não mostram redução suficientemente rápida, é necessário entender completamente a alternativa de último recurso antes de precisar usá-la. “Se precisarmos fazer algo assim, é melhor saber o que estamos fazendo. Porque não queremos criar um problema maior tentando resolver outro”.

Fonte: Um Só Planeta – Foto: Unsplash

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