Preço da energia pode ficar elevado por muitos anos no Brasil

Aprendemos na marra que não podemos depender apenas de São Pedro. No início do século, 90% da energia elétrica gerada no Brasil era hidráulica. Alguns poucos anos antes, alguns estudos mostravam que existiam períodos de vacas gordas e magras nas chuvas de verão no Brasil. Conhecíamos bem o impacto sobre a precipitação em períodos de El Niño e La Niña, fenômeno de prazo relativamente mais curto, mas não tínhamos clara ideia de que o excesso ou falta de chuva poderiam acontecer em um período bem mais longo.

Os estudos sobre padrões de longo prazo observados no oceano Pacífico são antigos. Começaram no fim da década de 70 para investigar um inverno particularmente rigoroso observado na costa oeste dos Estados Unidos. Percebeu-se que além dos fenômenos, El Niño e La Niña, existiam períodos de algumas décadas em que predominavam mais La Niñas que El Niños e vice-versa.

Deu-se o nome de Oscilação Interdecadal do Pacífico (ODP). No fim da década de 70, estávamos saindo de uma fase chamada “fria”, ou seja, estávamos observando mais La Niñas que El Niños no Pacífico. Vários trabalhos saíram nas últimas décadas relacionando o padrão da ODP com a chuva e temperatura mundo a fora.

No Brasil não foi diferente e a partir do início dos anos 2000 surgiram trabalhos que mostraram a relação entre a precipitação e a ODP. Um deles, em 2009, de Luiz Carlos Baldicero Molion, mostrou que sob fase fria, a precipitação diminuía em 10% e 30% na bacia do rio Paraguai comparando-se com o período de fase quente. Mas prosseguindo mais uma década, percebe-se que isso não vale apenas para a região do Pantanal. Abaixo aparecem os totais pluviométricos registrados entre dezembro e fevereiro, trimestre mais chuvoso, nos últimos 41 anos.

As informações são do Cptec/Inpe e foram coletados em Minas Gerais e São Paulo, Estados que concentram a maior parte dos reservatórios para geração de energia. Em todos os casos, o lado esquerdo dos gráficos (década de 80 e início dos anos 90) apresenta maior precipitação que o lado direito do gráfico (anos 2000). E há uma coincidência entre uma mudança da fase da Oscilação Interdecadal do Pacífico. De quente, ela passou a fria a partir do início dos anos 2000.

SATIS

Imagem – Evolução da precipitação entre 1981 e 2021 no trimestre dezembro-janeiro-fevereiro nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Região 92: leste de Goiás e Distrito Federal; Região 99: tríplice divisa entre Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul; Região 100: Triângulo Mineiro; Região 101: Cerrado de Minas Gerais; Região 107: norte de São Paulo; Região 108: sul de Minas Gerais – Fonte: Cptec/Inpe


Ainda não há estudos conclusivos sobre a duração de cada fase da ODP. Fala-se em algo entre 20 e 30 anos. A última fase fria aconteceu entre 1947 e 1976 e não foi coincidência da ocorrência de um dos anos mais secos da história do Estado de São Paulo, que foi 1956. Atualmente, o posto de ano mais seco da história é 2014.


A questão é que a chance de continuarmos sob verões mais secos nos próximos anos ainda é elevada. Ainda existem dúvidas sobre o retorno de um novo racionamento, mas a conta a se pagar para mantermos tudo funcionando permanecerá cara por muitos anos ainda, especialmente durante os invernos, épocas em que as termoelétricas são acionadas com maior frequência para suprir os verões menos chuvosos.


Para a agricultura, o preço elevado da energia diminui a margem de lucro do produtor, seja para manter irrigação ou mesmo para manter a temperatura do ar em um patamar ideal quando estamos olhando para granjas, por exemplo. Isso sem contar aqueles que não dispõe de água para irrigação ao longo da bacia do rio Paraná.

Fonte: Climatempo

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