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Um contorno desbotado de mão humana em uma caverna de calcário na Indonésia pode representar a pintura rupestre mais antiga já identificada no mundo. O estêncil tem pelo menos 67,8 mil anos, o que significa que ele supera todos os registros anteriores conhecidos e reposiciona o país no centro das discussões sobre a origem da arte humana.
A pintura foi identificada na caverna de Liang Metanduno, na ilha de Muna. Apesar de o local ser conhecido e frequentado por turistas, o desenho passou despercebido por décadas, oculto entre pinturas mais recentes de animais, figuras humanas e cenas do cotidiano. Veja mais no vídeo abaixo:
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Somente após análises minuciosas arqueólogos locais, em colaboração com pesquisadores da Universidade Griffith, da Austrália, conseguiram confirmar se tratar de um estêncil de mão, feito a partir da técnica de soprar pigmento (provavelmente ocre misturado com água) sobre a mão apoiada na parede da caverna. Detalhes do achado foram compartilhados nessa quarta-feira (21) em um artigo na revista Nature.
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Símbolos enigmáticos
Para determinar a idade mínima da pintura, os investigadores analisaram pequenas camadas de calcita que se formaram sobre o pigmento ao longo do tempo. O método mede a decomposição do urânio em tório nesses depósitos minerais, oferecendo resultados considerados altamente precisos.
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“O grande desafio da arte rupestre é datá-la”, afirma o arqueólogo Maxime Aubert, um dos líderes da pesquisa, ao jornal The Guardian. “Quando conseguimos fazer isso, abrimos uma janela íntima para o passado e para a mente dessas pessoas.”
Além do fato de sua antiguidade, o estêncil chama atenção pelo formato dos dedos, que são estreitos e pontiagudos. Os autores do estudo acreditam que essa característica pode ter sido intencional, sugerindo um significado simbólico mais complexo.
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O arqueólogo Adam Brumm, também coautor do trabalho, levanta a hipótese de que os artistas pré-históricos buscavam transformar a mão humana em algo diferente – talvez uma garra de animal ou mesmo uma figura híbrida. Esse tipo de modificação aponta para uma capacidade abstrata avançada, indo além da simples marcação de presença.
A escolha deliberada de alterar a anatomia da mão sugere uma linguagem visual compartilhada, possivelmente ligada a crenças, mitos ou rituais que não deixaram outros vestígios materiais. Tal interpretação, no entanto, não é consenso, já que o formato incomum poderia ter sido causado apenas pelo movimento dos dedos durante a pintura.

Migrações humanas
Essa discordância amplia o debate sobre quem, afinal, foram os autores da pintura de Muna. Embora os pesquisadores associem o estêncil aos ancestrais dos povos aborígenes australianos, outras espécies humanas não podem ser descartadas. Os denisovanos, por exemplo, ocuparam vastas áreas da Ásia e chegaram à atual Indonésia, o que abre a possibilidade de múltiplas linhagens humanas envolvidas na produção artística pré-histórica.
Mesmo com as divergências, a descoberta tem implicações importantes para o estudo das migrações humanas pré-históricas. A arte rupestre de Sulawesi reforça a hipótese de que grupos hominídeos atravessaram essa região ao migrar do antigo continente asiático de Sunda para Sahul, que conectava Austrália, Nova Guiné e Tasmânia quando o nível do mar era mais baixo.
Para os autores, o achado sustenta evidências de que o norte da Austrália já era habitado há pelo menos 65 mil anos. Segundo o arqueólogo coautor indonésio Adhi Agus Oktaviana, a pintura revela a dimensão cultural desses povos antigos. “Isso mostra que nossos ancestrais não eram apenas grandes navegadores, mas também artistas”, afirma ao jornal Al Jazeera.
Ao ampliar o marco temporal da arte figurativa conhecida, o estêncil de Liang Metanduno desafia narrativas eurocêntricas sobre a origem da criatividade humana e reforça o sudeste asiático como um dos principais polos da inovação simbólica na pré-história. Mais do que um vestígio isolado, a mão pintada na rocha surge como um sinal de que a necessidade de expressão, identidade e imaginação acompanha a humanidade desde seus primórdios.
Fonte: Galileu