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Pesquisa mostrou que mudanças simples nas práticas de atendimento reduziram em 18,5% a incidência de sepse tardia em prematuros de muito baixo peso.
Um estudo coordenado por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp demonstrou que a adoção de medidas simples e sem custo pode reduzir significativamente casos de sepse tardia em recém-nascidos prematuros de muito baixo peso internados em Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTIs).
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A pesquisa indicou uma redução geral de 18,5% na incidência de sepse tardia, condição considerada uma das principais causas de morte entre bebês prematuros. O trabalho foi desenvolvido em centros médicos conveniados à Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN).
A sepse é uma resposta inflamatória desregulada do organismo diante de uma infecção. Nos recém-nascidos prematuros com peso inferior a 1.500 gramas, a doença pode se apresentar de duas formas. A forma precoce ocorre até o terceiro dia de vida e geralmente está associada a fatores maternos, como ruptura prematura da bolsa, parto prematuro ou infecções durante a gestação. Já a sepse tardia surge após o terceiro dia de vida e costuma estar relacionada ao ambiente hospitalar.
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Prematuros apresentam sistema imunológico ainda imaturo e frequentemente necessitam de dispositivos essenciais para manutenção da vida, como ventilação mecânica e acesso venoso central para nutrição e administração de medicamentos. Apesar de fundamentais, esses dispositivos podem facilitar a entrada de agentes infecciosos.
Desde 1997, a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais reúne pesquisadores de centros universitários de referência para monitorar a situação desses bebês e desenvolver estratégias que melhorem a assistência nas UTIs neonatais.
Em 2009, foi criado um grupo de trabalho para acompanhar os fatores associados à sepse tardia nas unidades participantes. Na época, a incidência chegava a cerca de 25%, o que significava que um em cada quatro bebês prematuros apresentava a infecção. Em 2020, o índice chegou a aproximadamente 30%, o que levou os pesquisadores a propor um projeto de intervenção.
As docentes Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina de Botucatu, foram designadas pela RBPN para coordenar o projeto chamado DownLOS, sigla em inglês para sepse tardia.
A iniciativa foi implementada entre 2021 e 2023 com a participação voluntária de 12 centros. O objetivo foi promover mudanças nas práticas assistenciais e reduzir os casos da doença. Ao final do período, 67% das unidades participantes registraram redução na incidência de sepse tardia.
Identificação de fatores de risco
Para identificar os principais fatores associados à infecção, as pesquisadoras utilizaram metodologias de melhoria de qualidade amplamente aplicadas na área da gestão.
Entre as ferramentas utilizadas estão o método PDCA — que envolve as etapas de planejar, executar, verificar e agir — e os diagramas de Ishikawa e Pareto, que ajudam a identificar causas e prioridades na resolução de problemas.
O estudo apontou três fatores principais associados à ocorrência de sepse tardia: o uso de antibióticos nas primeiras 48 horas de vida em bebês sem infecção confirmada, complicações relacionadas ao uso de cateter venoso central e o início tardio da alimentação com leite materno.
Segundo as pesquisadoras, o uso precoce de antibióticos pode causar alterações na flora intestinal do recém-nascido e aumentar a vulnerabilidade a infecções. Já a introdução antecipada do leite materno favorece a imunidade do bebê e permite retirar mais cedo dispositivos invasivos, reduzindo riscos.
Após o diagnóstico das causas, cada centro participante definiu metas e estratégias para melhorar suas práticas assistenciais. Para isso, foi utilizada a metodologia 5W2H, ferramenta de gestão que estabelece responsabilidades e ações a partir de perguntas como o que fazer, por que fazer, onde, quando, quem será responsável, como executar e qual o custo.
Expansão da iniciativa
Em janeiro de 2026, os 24 centros que atualmente integram a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais foram convidados a participar de uma nova etapa do projeto. A proposta agora inclui maior participação de enfermeiros e técnicos de enfermagem nas ações de prevenção.
Segundo as pesquisadoras, a expectativa é que a iniciativa se amplie e possa ser adotada por outras unidades neonatais do país, inclusive fora da rede universitária, como forma de reduzir infecções e melhorar a qualidade da assistência a recém-nascidos prematuros.