01 de abril, 2026

Últimas:

O que mudou nos streamings e por que o assinante ficou mais exigente

Anúncios

A conta mensal do entretenimento digital cresceu mais rápido que o catálogo, e o consumidor brasileiro já percebeu

Em 2014, a TV por assinatura no Brasil tinha 19,6 milhões de contratos ativos. Uma década depois, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), esse número caiu para 9,5 milhões.

Anúncios

A promessa que convenceu boa parte dessa base a migrar era simples: pagar menos, assistir mais e no horário que quisesse. O streaming cumpriu essa promessa por um tempo. Agora, o cenário é outro.

Assinar as 14 principais plataformas de vídeo disponíveis no país pelos planos mais baratos custa R$ 380 por mês, de acordo com levantamento da Watch Brasil publicado em 2025. Quem preferir assistir sem anúncios e com qualidade de imagem superior pode ultrapassar R$ 700 mensais, conforme estimativa do Correio Braziliense.

Anúncios

O salário mínimo no Brasil em 2025 era de R$ 1.518. A conta não fecha para uma parcela significativa da população, e quem pode pagar passou a questionar o que recebe em troca.

O brasileiro, mesmo com renda per capita bem inferior à dos norte-americanos, assina em média 3,8 plataformas de streaming, contra duas nos Estados Unidos. A diferença expõe o tamanho do peso que o entretenimento digital representa no orçamento das famílias.

A Pesquisa de Assinaturas 2025, conduzida pela Vindi em parceria com o Opinion Box, mostrou que 35% dos consumidores brasileiros aumentaram seus gastos com serviços de assinatura no último ano. Para 56% dos entrevistados, o gasto mensal com assinaturas fica entre R$ 51 e R$ 200.

Preço sobe, catálogo se fragmenta

Parte da frustração do assinante vem de uma combinação que se repetiu nos últimos dois anos: preços maiores e conteúdo espalhado por mais plataformas. Séries e filmes saem de um serviço por disputas de licenciamento e aparecem em outro sem aviso. O consumidor paga, mas a oferta que justificou aquele pagamento pode desaparecer de uma semana para outra.

Quando a Netflix chegou ao Brasil, seus planos custavam uma fração do valor cobrado pelas operadoras de TV a cabo. Esse argumento perdeu força. Em 2025, a Max (antiga HBO Max) reajustou o plano Standard de R$ 29,90 para R$ 44,90, um aumento de 50%. Disney+, Paramount+ e outras plataformas também ajustaram suas tabelas em diferentes momentos.

Nos Estados Unidos, a Netflix aplicou dois reajustes entre janeiro de 2025 e março de 2026, levando o plano premium a US$ 26,99 mensais. No Brasil, os valores seguem inalterados desde maio de 2024, mas o histórico global da empresa mostra que reajustes tendem a chegar ao mercado nacional com atraso, não com isenção permanente.

Os planos com anúncios surgiram como resposta parcial a esse encarecimento. A ideia era manter uma faixa de preço acessível em troca de intervalos publicitários durante a exibição. A Netflix informou que 55% das novas adesões à plataforma em 2025 foram pelo plano com anúncios.

Ao mesmo tempo, 58% dos consumidores brasileiros rejeitam a inclusão de publicidade nos planos pagos, segundo a Pesquisa de Assinaturas 2025. A tensão entre o que o consumidor aceita pagar e o que as plataformas precisam cobrar é o ponto onde a insatisfação se concentra.

A era do compartilhamento acabou

Outro fator que alterou a relação do assinante com os streamings foi o fim do compartilhamento de senhas. A Netflix começou a bloquear o uso de contas fora da residência do titular em maio de 2023 no Brasil, cobrando R$ 12,90 por perfil extra.

O resultado financeiro foi positivo para a empresa, que registrou um aumento recorde de 19 milhões de novos assinantes no último trimestre de 2024. O Disney+ seguiu o mesmo caminho em novembro de 2024, restringindo o uso da conta a dispositivos vinculados ao mesmo endereço. A Warner fez o mesmo com a Max em abril de 2025.

Para o consumidor, o efeito foi direto: o que antes saía por uma assinatura dividida entre amigos ou familiares em casas diferentes passou a exigir contratos individuais. Quem mantinha acesso a três ou quatro plataformas por meio de divisão informal viu o custo real do entretenimento digital pela primeira vez. E precisou escolher.

Essa escolha tem sido cada vez mais frequente. Pesquisa da Kantar IBOPE Media aponta que mais de 75% dos brasileiros com acesso à internet consomem filmes e séries por streaming.

O tempo médio gasto nessas plataformas é de 22 horas por semana. Os números confirmam que o formato faz parte da rotina, mas não significam que o assinante está satisfeito com o custo ou com a experiência.

O que o assinante passou a cobrar

O consumidor brasileiro de 2026 é diferente daquele que assinou o primeiro plano da Netflix em 2012. A variedade de opções criou um efeito colateral: comparação constante. Quando havia uma ou duas plataformas relevantes, a avaliação era simples.

Hoje, com mais de uma dezena de serviços disponíveis, o assinante compara preço, catálogo, qualidade de imagem, estabilidade e facilidade de uso antes de decidir onde vai colocar o dinheiro.

Segundo a pesquisa da Istoé Dinheiro com base em dados de classes A, B e C, 68% dos entrevistados apontam a variedade de filmes e séries como principal motivo para assinar uma plataforma. Preço acessível aparece em segundo lugar, com 34%, seguido por conteúdo exclusivo e original (29%).

A Netflix lidera em reconhecimento de marca e tamanho de base, assinada por 59% dos entrevistados nessas faixas de renda. O Prime Video aparece em segundo, com 33%, e o Globoplay em terceiro, com 26%.

O que os dados revelam é que o assinante não troca de plataforma por impulso. Ele avalia o que cada serviço entrega e, quando sente que o valor não corresponde ao preço, cancela.

A fidelidade que existia nos primeiros anos do streaming deu lugar a um rodízio: assinar por um mês para assistir a um lançamento específico, cancelar e voltar quando houver algo novo que justifique o pagamento.

As próprias plataformas alimentaram esse comportamento ao concentrar lançamentos em janelas curtas e ao dividir temporadas em partes separadas por meses de intervalo.

O peso dos tributos e o cenário regulatório

O mercado de streaming no Brasil movimenta cerca de R$ 69,7 bilhões por ano, segundo estimativas compiladas pela Ancine. Esse volume chamou atenção de reguladores.

O Ministério da Cultura e a Ancine discutem a aplicação da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) sobre as plataformas digitais. Com alíquota de 3%, a arrecadação anual poderia alcançar R$ 2,28 bilhões, conforme cálculos da agência.

Para o assinante, o impacto potencial é concreto: tributos sobre os serviços tendem a ser repassados ao preço final da assinatura. Em um mercado onde o consumidor já reclama do custo, qualquer acréscimo pode acelerar a busca por alternativas.

IPTV: a alternativa que ganhou espaço

Enquanto o preço dos streamings subiu e a fragmentação do conteúdo se acentuou, uma tecnologia que já existia há anos ganhou relevância entre os consumidores brasileiros: o IPTV (Internet Protocol Television).

Na prática, o IPTV permite assistir canais de televisão e conteúdo sob demanda pela internet, sem depender de antena, satélite ou cabo. O crescimento acompanha dois movimentos: a expansão da fibra óptica pelo país e o encarecimento das plataformas tradicionais, que abriu espaço para alternativas com acesso mais amplo por valores menores.

Nesse cenário, a busca por teste IPTV também cresceu entre consumidores interessados em conhecer o serviço antes de decidir pela contratação.

Segundo a Mordor Intelligence, o mercado global de IPTV foi avaliado em US$ 56,6 bilhões em 2025, com projeção de atingir US$ 133 bilhões até 2030. A América Latina está entre as regiões com expansão mais acelerada.

No Brasil, o perfil de quem migra para o IPTV é variado: vai de quem cancelou a TV por assinatura e não quer assinar cinco plataformas diferentes a quem busca canais esportivos ao vivo sem pagar pelos pacotes mais caros dos grandes serviços.

Em muitos casos, o primeiro contato acontece por meio de um teste IPTV, usado para avaliar estabilidade, variedade de canais e acesso ao conteúdo.

O mercado de IPTV, no entanto, opera em terreno regulatório complexo, com provedores legalizados que oferecem conteúdo licenciado e serviços que distribuem canais sem autorização. A legislação brasileira proíbe a distribuição de sinais de TV sem as devidas licenças, e cabe ao consumidor verificar a procedência do serviço antes de contratar.

O que vem pela frente

A projeção da PwC é que os brasileiros gastem US$ 39,4 bilhões (cerca de R$ 215 bilhões) em streaming, música, games e outros serviços digitais em 2025.

O Brasil representa 36% da receita das empresas de entretenimento e mídia na América Latina e ocupa a 11ª posição no ranking global do setor. São números que confirmam a relevância do mercado, mas que também expõem a pressão sobre o orçamento do consumidor.

Em 2024, 32,7 milhões de lares brasileiros tinham pelo menos um serviço de streaming, 1,5 milhão a mais que no ano anterior. A base cresce, mas o comportamento do assinante mudou. O consumidor que paga R$ 45 por mês em uma única plataforma espera catálogo amplo, imagem sem travamento, interface intuitiva e nenhuma surpresa na fatura.

Quando isso não acontece, ele cancela e testa outra coisa. Quando todas as opções decepcionam, ele busca caminhos diferentes, do IPTV ao rodízio mensal entre plataformas.

streaming não está em crise. Está em correção. As empresas testaram até onde podiam subir preços e restringir acesso sem perder audiência. O assinante respondeu sendo mais seletivo, mais informado e menos fiel. Essa é a nova dinâmica, e quem não entender isso vai perder espaço para quem entender primeiro.

Talvez te interesse

Últimas

Anúncios A conta mensal do entretenimento digital cresceu mais rápido que o catálogo, e o consumidor brasileiro já percebeu Em...

Categorias