Homem que se apresentava como pastor é preso por suspeita de estuprar pelo menos seis crianças e adolescentes no interior de SP

Um homem que se apresentava como pastor evangélico foi preso por suspeita de estuprar seis crianças e adolescentes que frequentavam um espaço de oração na casa dele, em Mogi das Cruzes. A polícia acredita que Eduardo Nunes da Silva, de 48 anos, pode ter feito mais vítimas

Segundo o boletim de ocorrência, o suposto pastor usava a fé para se aproximar dos jovens e cometer o crime. Em um dos relatos, uma adolescente, que hoje tem 16 anos, afirma que Eduardo teria dito que “Deus revelou que ela não era mais virgem, que estava com uma ferida na vagina e que precisaria penetrá-la para curar”.

Eduardo se apresentava como pastor e, segundo relatos das vítimas, usava da fé para cometer estupros
Eduardo se apresentava como pastor e, segundo relatos das vítimas, usava da fé para cometer estupros )(Foto: Reprodução/Facebook)

De acordo com o Conselho de Pastores e Obreiros de Mogi das Cruzes, o homem não é credenciado para exercer a função. Dois advogados informaram que desistiram do caso e, segundo a Polícia Civil, até o momento nenhum novo profissional se apresentou para assumir a defesa do suspeito.

A casa de oração ‘Almas para o Rei’, mantida por Eduardo, fica no Jardim Rodeio. O espaço está fechado desde a prisão. Segundo informações da polícia, ele atuou no local por mais de seis anos e mantinha um projeto de evangelização destinado aos jovens da comunidade. Como muitos moravam perto, acabavam indo sozinhos.

A suspeita é de que o homem se aproveitava desses encontros para atrair as vítimas. No boletim de ocorrência, os pais compartilham o relato dos jovens. Um afirma que o episódio, com conjunção carnal, ocorreu quando dormiu na casa do suspeito. Também há reclamações de que o suposto pastor passava a mão pelas nádegas de outra criança ao abraçá-la.

Homem que se identificava como pastor é investigado por suspeita de estupros em Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução)

O pai de uma adolescente de 16 anos, que relatou ter sido estuprada pelo suposto pastor, afirma que a filha está traumatizada. “Ela está indo para outra igreja agora e vê pessoas que parecem um pouco com ele. Ela chega em casa desesperada falando pra mãe dela que viu ele na igreja, sabe?! Então ela não tá nem conseguindo ir para outra igreja agora, por medo. Às vezes um pastor vai conversar e ela fica com medo”, conta.

O pai de outra adolescente conta que sua filha também foi vítima de abusos de Eduardo. “Minha filha mais velha relatou que ele, após o culto, falou pra ela que Deus mostrava pra ele que ela não era mais virgem. E que ela tinha uma ferida por baixo e ele teria que passar uma pomada e penetrar nela”.

Além disso, as denúncias apontam que os crimes podem ter começado há mais de cinco anos, mas os pais só ficaram sabendo em fevereiro de 2022, quando uma das adolescentes resolveu contar para a mãe. Depois dela, outros cinco, incluindo meninos, também criaram coragem. Eles têm entre 12 e 16 anos.

Casa de Oração Almas para o Rei, em Mogi das Cruzes, era mantida por Eduardo Nunes da Silva
Casa de Oração Almas para o Rei, em Mogi das Cruzes, era mantida por Eduardo Nunes da Silva (Foto: Yasmin Castro/g1)

Quando souberam da história, os pais tentaram conversar pessoalmente com o suspeito. No entanto, ao chegar no local, foi informado que ele havia viajado para Minas Gerais antes que o encontro acontecesse. A solução foi chamar a polícia, que levou as famílias até a Delegacia de Defesa da Mulher, especializada em crimes sexuais. O caso foi registrado como estupro de vulnerável.

Luciana Amat, delegada titular da DDDM de Mogi das Cruzes, afirma que os depoimentos foram suficientes para que Eduardo Nunes tivesse a prisão decretada.

“De imediato, nós já identificamos que se tratava de um crime grave. Instauramos um inquérito policial no dia seguinte e marcamos o depoimento especial das crianças. As vítimas foram muito contundentes em relatar detalhes dos fatos. Assim que nós percebemos que os fatos eram graves nós representamos ao poder judiciário pela prisão temporária, a qual foi decretada e cumprimos a prisão”.

Ainda segundo a delegada Luciana Amat, a polícia espera alertar outras possíveis vítimas e identificar se o suposto pastor cometeu mais crimes. Ela também afirma que deve pedir que o suspeito fique preso por mais tempo para o avanço das investigações.

“Ele aguarda prisão temporária no prazo de 30 dias pra gente concluir as investigações. Havendo mais elementos, a gente vai representar por uma nova prisão”, conclui a delegada.

Suspeito não era credenciado como pastor

De acordo com o Conselho de Pastores e Obreiros de Mogi das Cruzes, qualquer pessoa pode abrir um espaço religioso e atuar como pastor protestante, pois o exercício da fé é defendido pela Constituição Federal.

No entanto, em todo o país, os Conselhos de Pastores contam com requisitos básicos para o credenciamento de quem deseja abrir ou gerenciar uma igreja. A medida é uma tentativa de monitorar e oferecer suporte para quem exerce a função.

Uma das exigências é a graduação em teologia. Depois de formado, o candidato passa por um período de experiência e, só então, recebe a credencial. Segundo o Conselho, esse não é o caso de Eduardo, que não tinha credenciamento para atuar ou ter uma igreja.

Porém, diferentemente do que acontece com outros conselhos de categoria, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou Conselho Regional de Medicina (CRM), por exemplo, não existe uma irregularidade por trabalhar como pastor sem credencial.

Fonte: G1