Emoções positivas podem trazer benefícios para a saúde e para o bem-estar, aponta estudo de Botucatu

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A proposta é simples: basta fazer um coração em uma superfície amarela e escrever ali bons sentimentos que se deseja doar para alguém, fazendo com que o recorte chegue à essa pessoa. Foi assim que surgiu o Doe Sentimentos Positivos, projeto capitaneado pela psicóloga Renata Livramento que, neste ano, em sua sétima edição, precisou se reinventar. Se antes toda ação era pautada por trocas presenciais, desta vez foi preciso recorrer à internet, afinal, em função da pandemia da Covid-19, medidas como o distanciamento social ainda são fundamentais para evitar a proliferação da doença. Para a surpresa da criadora, a inovação levou a um recorde de engajamento. “Chegamos a inéditas 60 cidades e, além do Brasil, tivemos ações em outros países, como Portugal e Itália, na Europa, e Angola, na África. Foram mais de 140 embaixadores e cerca de mil voluntários”, orgulha-se a idealizadora da iniciativa. 

Classificada como “urgente” pela psicóloga, a mais recente etapa do projeto, que contou com uma maratona de atividades virtuais relacionadas aos princípios da gentileza urbana, foi concluída no último domingo, 8. “Estamos passando por um momento complicado, as pessoas precisam receber acolhimento”, pontua, concluindo que o pequeno gesto de dedicar ao outro emoções que remetem ao nosso próprio bem-estar pode amenizar os impactos negativos associados ao atravessamento desse período de turbulência. Alinhada ao que indicam estudos da psicologia positiva, Renata sustenta que a ação pode ser suficiente para desencadear uma série de reações que ampliam a nossa sensação de felicidade – e também a daqueles a que dedicamos esses sentimentos. 

“Todo esse trabalho é fundamentado em pesquisas científicas, que demonstram como essa atividade (de doação ao outro e de elaboração de bons sentimentos) favorece o bem-estar de quem doa e de quem recebe”, comenta a idealizadora da ação e fundadora do Instituto Brasileiro de Psicologia Positiva. “Ao longo de sete edições, tivemos casos de pessoas que aprenderam a lidar melhor com questões que as afligiam, e já têm chegado para nós muitos resultados positivos colhidos ao longo deste ano. Não tenho dúvida que a atividade promove impacto psicossocial individual e coletivamente”, sustenta. 

De fato, uma série de pesquisas já indicou que as emoções positivas – como otimismo, coragem, ética, espiritualidade, significado de vida, competências interpessoais e responsabilidade social – e o comportamento pró-social – altruísmo, cooperação, confiança e compaixão – podem trazer diversos benefícios para quem os pratica. “Estados emocionais positivos deixam o cérebro mais disposto a resolver problemas, pois, cognitivamente, ele vai funcionar melhor”, avalia a professora doutora em psicologia Lilian Graziano, que acrescenta: “A felicidade repercute até mesmo em muitos melhores indicadores físicos de saúde, inclusive trazendo melhora para o funcionamento do sistema imunológico”. Em sua tese de doutorado, apresentada à Universidade de São Paulo (USP) em 2005, Lilian cobra que a comunidade científica tenha coragem de pesquisar um tema (a felicidade) “que até agora tem sido explorado quase exclusivamente pela literatura de autoajuda”, aponta.  

Pesquisadores brasileiros têm investigado como emoções positivas podem trazer benefícios para a saúde 

Consonante aos apelos da estudiosa da psicologia positiva Lilian Graziano, uma publicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) daquele mesmo 2005 listou estudos brasileiros que investigam como “as condições emocionais dos seres humanos, que são afetadas por aspectos como estresse, relações afetivas e atitude diante dos problemas, podem ter um papel fundamental no aparecimento e no tratamento de doenças como o câncer”.  

O imunologista José Mauricio Sforcin, por exemplo, ressalta que indivíduos depressivos costumam apresentar reduzido número de células de defesa, os linfócitos, que combatem infecções específicas, e baixa produção de uma proteína que regula as respostas do sistema imunológico às ameaças do organismo, a citocina IL-3. De acordo com ele, a resposta imune celular é mais afetada em situações de estresse. É como se, em linhas gerais, emoções negativas fossem capazes de minar (ou pelo menos enfraquecer) as defesas do organismo. 

A Unesp também cita estudos do psicólogo Nelson Silva Filho. “A partir de análises feitas no Ambulatório Especial do Departamento de Doenças Tropicais e Diagnóstico por Imagem da FM/Botucatu, ele constatou que, entre 31 pacientes infectados – com ou sem os sintomas da doença –, 84% apresentavam algum grau de depressão crônica, e 36%, propensão suicida”, cita a publicação universitária, reforçando como fatores psicológicos podem estar associados às alterações da condição imunológica de indivíduos infectados pelo HIV, vírus causador da Aids. Já o infectologista Domingos Alves Meira pontua, conforme registrado no texto, que doenças infectocontagiosas como herpes e Aids podem ter origem psicossomática. 

A emergência da psicologia positiva 

Movimento relativamente recente dentro da ciência psicológica que defende uma visão mais aberta e que valoriza os potenciais, as motivações e as capacidades humanas, a psicologia positiva põe em evidência não apenas o tratamento de doenças mentais, mas também a busca pela felicidade e pelo bem-estar. Um dos expoentes e criadores deste conceito, o psicólogo norte-americano Martin Seligman define a abordagem como “a ciência que enfatiza a compreensão e potenciação das qualidades mais positivas do indivíduo”. 

“É importante falar que não estamos falando em ‘pensamento positivo’, não tem nada a ver com essa história de que ‘basta pensar positivo que tudo vai dar certo’. Estamos falando de uma ciência que estuda temas como felicidade, alegria, esperança, fé e otimismo e suas repercussões para a saúde e o bem-estar das pessoas”, ressalta Lilian Graziano, fundadora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento. 

Exercício. E se há evidências científicas dos benefícios físicos e psicossociais de se adotar uma postura mais positiva perante a vida, Lilian aponta que é possível exercitar essas emoções. “O que faz com que a gente mude de atitude e de postura não é só o desejo de mudança. Essa vontade só será efetivada por meio do treinamento diário”, garante ela, que compara a situação ao sonho de aprender a tocar algum instrumento musical. “Você pode se imaginar tocando, mas se não se dedicar à prática diariamente, não vai aprender de verdade”, diz.
 
Logo, “se você identifica que perdoar é algo difícil, tente se colocar em situações em que busque praticar o perdão”. “E, se não costuma se sentir grato, pode buscar se forçar a observar coisas boas que acontecem e que pode demonstrar gratidão”, comenta, observando que, a partir dos atuais conhecimentos sobre a neuroplasticidade cerebral, é possível dizer que o órgão se modifica conforme o exercitamos e, portanto, a capacidade de aprendizagem e de aquisição de novos hábitos e comportamentos nunca se esgota. 

Essa prática cotidiana pode ser facilitada, por exemplo, pelas meditações guiadas. “Algumas delas direcionadas para exercício de emoções positivas”, explica a psicóloga. A exemplo do que propõe o projeto Doe Sentimentos Positivos, tomar nota dos acontecimentos e das emoções positivas que nos ocorreram durante o dia também ajuda bastante. “Dessa maneira, podemos estruturar nosso pensamento. Ao escrever, elaboramos nossa emoção, deixando aquele sentimento mais concreto”, examina Lilian.

Sensação de felicidade é ampliada quando se é generoso, apontam estudos

A ideia da psicóloga Renata Livramento de que o exercício da doação reverbera em bem estar para os benfeitores faz sentido à luz de pesquisas recentes. Em um experimento inicial realizado em 2008 e citado no artigo “Gastos pró-sociais e felicidade: usar dinheiro para beneficiar os outros compensa”, assinado por pesquisadores das universidades canadenses da Colúmbia Britânica e de Simon Fraser e da norte-americana Harvard Business School, estudantes universitários receberam uma nota de US$ 5 ou US$ 20, sendo que metade deles foi orientada a comprar coisas para si próprios e a outra metade a presentear outra pessoa.

“Naquela noite, as pessoas designadas para gastar o dinheiro com outra pessoa relataram que se sentiram mais felizes ao longo do dia do que aquelas designadas para gastar o dinheiro consigo mesmas. Curiosamente, a quantidade de dinheiro que eles receberam não influenciou em sua felicidade”, detalham os pesquisadores. A partir desta evidência, os pesquisadores observaram que, para alcançar uma melhora na sensação de bem-estar, o como se gasta é tão ou mais importante do que o quanto de capital se tem para gastar.

Em um outro teste, realizado em 2012, os estudiosos deram a crianças com pouco menos de dois anos uma pilha de guloseimas. Em seguida, elas foram convidadas a dar um de seus doces para um fantoche que comia com entusiasmo. “As crianças exibiam maior felicidade quando davam guloseimas para o fantoche do que quando elas próprias recebiam guloseimas. Além disso, as crianças mostraram os níveis mais altos de felicidade quando deram uma recompensa de seu próprio estoque”, aponta o artigo, assinalando que os resultados sugerem que a capacidade de obter alegria ao doar pode ser uma característica universal da psicologia humana.

Os autores do artigo alertam que “o argumento de que os seres humanos têm uma tendência universal de sentir alegria ao doar não significa que toda forma de gasto pró-social sempre produz benefícios emocionais”. Isto é: se o ato acontece mecanicamente, menores serão as chances de a boa ação repercutir para o bem-estar do benfeitor.

Em um terceiro experimento, este realizado em 2013, fica evidente como a vivência, mais que o gasto em si, é essencial para o desenvolvimento de uma reação positiva. Neste caso, os participantes que receberam um cartão-presente de US$ 10 da rede de cafeterias Starbucks ficavam mais felizes se gastassem esse cupom na companhia de um amigo em vez de apenas consigo mesmos.

O artigo ainda cita que, além da felicidade, outros “benefícios são observados dos gastos pró-sociais podem ser detectados no cérebro e no corpo”. Pesquisas que indicam que, ao dar algo para alguém, áreas de recompensa do cérebro são ativadas e consequências físicas são geradas. “Embora qualquer decisão de gasto provavelmente tenha efeitos de curta duração nos processos biológicos, essas decisões podem, com o tempo, moldar importantes resultados de saúde. Os adultos mais velhos que relatam dar mais dinheiro e outros recursos a outras pessoas apresentam melhor saúde geral”, anotam os autores, citando que o risco de distúrbios do sono, por exemplo, é menor neste grupo.

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