23 de dezembro, 2025

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Educação Infantil no pós-pandemia: o desafio de reacender o tempo da infância.

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Por Fernanda Luciana Aparecida Mendes Ferri
Pedagoga • Especialista em Educação Especial, Inclusão Infantil e Desenvolvimento Emocional

Ao revisitarmos o que aconteceu nas salas da Educação Infantil após o longo período de restrições sanitárias, fica evidente que a pandemia não interrompeu apenas rotinas escolares: ela reorganizou expectativas, formas de atenção e maneiras de estar junto. O retorno presencial — ainda que gradual — trouxe à tona um fenômeno silencioso, porém profundo: muitas crianças voltaram diferentes, e nós, educadores, também.

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Em 2021, em algumas redes públicas, as famílias puderam escolher modelos variados de atendimento: havia a opção de enviar a criança uma semana sim, outra não, recebendo na semana em casa atividades pedagógicas diárias; e, em outros casos, a família optava por permanecer integralmente em casa, também com uma atividade por dia. Do ponto de vista do planejamento, foi um esforço enorme de continuidade e cuidado. Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, porém, 2021 e parte de 2022 expuseram um desafio que só fica claro quando a criança volta a conviver: a escola não é apenas conteúdo — é experiência, vínculo, corpo em movimento, brincadeira sustentada, frustração elaborada e afeto compartilhado.

O primeiro reencontro: crianças presentes, mas “de passagem”

No fim de 2021, quando muitas turmas tiveram um primeiro contato mais consistente após mais de um ano de quarentena, algo chamou atenção: diversas crianças demonstravam pouco interesse nas propostas, executavam tarefas muito rapidamente e tinham dificuldade em permanecer em uma mesma brincadeira por mais de 10 a 15 minutos. Não era apenas agitação. Era uma sensação de “passagem”, como se a atividade fosse um obstáculo entre a criança e a próxima novidade.

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Como professora, a impressão recorrente era: “elas querem rolar para a próxima”. A mesma lógica com que deslizamos o dedo na tela para trocar de vídeo. E isso se manifestava em frases repetidas, às vezes ansiosas, às vezes impacientes: “E agora?”, “Isso é chato”, “O que vamos fazer depois?”. O desafio não estava somente em “prender atenção”, mas em reconstruir, com delicadeza, o tempo interno da infância — aquele tempo em que brincar se aprofunda, o enredo se alonga, a curiosidade cresce e a experiência ganha corpo.

O que mudou no cenário do brincar e da atenção

Durante o período de isolamento, muitas crianças tiveram o cotidiano atravessado por telas, interrupções constantes, menos oportunidades de socialização e uma redução significativa da vivência coletiva. O brincar — que na Educação Infantil é eixo estruturante — em muitos contextos ficou mais individual, mais curto, mais dependente do adulto e, em alguns casos, mais mediado por estímulos rápidos.

No retorno, isso apareceu na sala de aula como:

Baixa tolerância ao tédio (qualquer “vazio” vira desconforto);

Dificuldade de esperar a vez e sustentar combinados;

Trocas rápidas de interesse, sem aprofundar a brincadeira;

Busca constante por novidade, como se a escola precisasse “entreter” o tempo todo;

Ansiedade por previsibilidade imediata (“o que vem depois?”).

É importante frisar: esse comportamento não deve ser lido como “falta de educação” ou “preguiça”. Em muitos casos, foi uma forma legítima de adaptação a um mundo instável e a uma infância vivida sob regras de proteção que limitaram experiências fundamentais.

A escola pós-pandemia: reconstruir vínculo antes de exigir desempenho

Em 2022, um aprendizado se impôs: antes de retomar metas, é preciso retomar vínculos. O interesse pela atividade nasce do encontro — com o professor, com os colegas, com o espaço, com a possibilidade de se sentir seguro. Quando a criança não sustenta uma brincadeira, muitas vezes ela não está “recusando aprender”; ela está reaprendendo a estar junto, a se regular, a negociar, a se frustrar e a imaginar.

Por isso, o retorno exigiu do educador uma postura que combina acolhimento com intencionalidade: reduzir o foco em “produções perfeitas” e ampliar o foco em processos. Algumas estratégias que se mostraram essenciais nesse período foram:

Rituais de começo e fim para dar segurança (rotina previsível acalma e organiza);

Propostas mais sensoriais e corporais no início (movimento regula);

Atividades mais longas com “camadas” (a mesma brincadeira pode ganhar desafios aos poucos);

Mediação de brincadeira (reensinar a brincar: entrar no enredo, sustentar narrativa, ampliar possibilidades);

Trabalhar o “tempo de espera” como habilidade — com combinados simples e visuais.

O desafio real: educar num mundo acelerado

Talvez o grande tema de 2022 seja este: como educar crianças pequenas em um mundo que acelera tudo? A pandemia intensificou a cultura do imediato, mas a Educação Infantil continua sendo o lugar do contrário: do tempo lento, do repetido, do experimentar, do insistir, do se relacionar.

Quando a criança pergunta a todo momento “e agora?”, a escola é chamada a responder com sensibilidade — não com pressa. O desafio é transformar o “agora” em presença, e não em troca. É ajudar a criança a descobrir que uma brincadeira pode durar, que uma proposta pode aprofundar, que o encontro pode ser suficiente.

O pós-pandemia não foi apenas “voltar”. Foi reconstruir. E, em 2022, ficou claro que o trabalho da Educação Infantil não é recuperar conteúdo perdido, mas recuperar algo ainda mais precioso: a experiência de infância compartilhada, com tempo, vínculo e sentido.

Por Fernanda Luciana Aparecida Mendes Ferri
Pedagoga • Especialista em Educação Especial, Inclusão Infantil e Desenvolvimento Emocional

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