Domésticas relatam dor, choque e revolta sobre morte de Miguel

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Atônitas. Choque e revolta se abateram sobre trabalhadoras domésticas de todo o país ao receber a notícia sobre a morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, filho de Mirtes Otávio Santana da Silva. O menino caiu do 9º andar do prédio de um condomínio de luxo conhecido como “Torres Gêmeas”, localizado no Recife, capital de Pernambuco, após ter sido deixado sob os cuidados da patroa de Mirtes, enquanto a empregada passeava com o cachorro dela.

“Foi um choque muito grande, não consegui ler a notícia até o fim. Comecei a chorar”, afirma Cleide Pinto, trabalhadora doméstica, diarista e presidente do Sindicato de Trabalhadoras Domésticas de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. “Como mãe e trabalhadora me coloquei no lugar daquela mãe. Como um ser humano consegue fazer uma coisa dessas com uma criança? É um descaso com o ser humano”, diz. Ela lembra que recebeu a notícia em grupos de redes sociais e tentou ler aos poucos. O choro que interrompia a leitura chamou a atenção do filho. “Ele precisou me dar água com açúcar para eu chegar até o final.”

Cleide, de 51 anos, trabalha desde os 13 como doméstica na mesma casa. “Senti como se não conseguíssemos nos defender. São coisas gritantes em pleno século 21”, afirma. “O mundo sempre sofreu o racismo, mas a sensação que tenho que é parece que estamos tentando voltar à escravidão.”

Caso Miguel: “não consegui ler sem chorar”

Arquivo pessoal

A presidente do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo, Janaína Mariana de Souza, afirma que a patroa de Mirtes, Sari Corte Real, não teve empatia nem com o garoto nem com a mãe. “A empregada achou que ela iria cuidar. Foi uma falta de cuidado”, afirma. A morte de Miguel, diz Janaína, é algo revoltante. “O que ocorreu foi uma discriminação, se fosse filha ou sobrinha da patroa isso não teria ocorrido. Houve um abandono.”

A discriminação em relação às trabalhadoras domésticas ocorre diariamente e de diversas forma. “Ao menos, este caso foi divulgado”, diz Janaína. “Mas diariamente, ficamos sabemos de casos que empregadas que não podem usar o mesmo elevador que os patrões. Isso nunca parou de acontecer.”

“Não raro, patroas levam babás em restaurantes e enquanto as crianças não comem, elas também não podem comer. Elas precisam esperar a criança almoçar. Todas as histórias marcam”, afirma. Segundo Janaína, muitas mulheres não conhecem os próprios direitos trabalhistas, o que agrava ainda mais a situação. “A mãe de Miguel pensou que a patroa fosse cuidar do filho como ela cuida da família da empregadora. Porém, essa mulher não conseguiu se colocar no lugar de uma mãe.”

Janaína afirma que, em um contexto de pandemia, as condições de trabalho das empregadas domésticas se agravam e muitas só podem continuar trabalhando acompanhadas dos filhos. “A empregada já tem que fazer uma escolha: ficar em casa e passar necessidade ou ir para a rua e se expor durante a pandemia”, afirma. “As creches não estão funcionando e muitas mães precisam levar os filhos para o trabalho. É o mínimo de proteção que elas precisam, porque precisam trabalhar para sobreviver.”

“Na hora pensei no meu filho”

Luzivânia de Souza Nobrega tem 40 anos e há mais de 10 trabalha como empregada doméstica. “Cuido de uma criança de 5 anos. Fiquei muito triste, é muita irresponsabilidade, era o único filho que ela tinha. A patroa não podia ter feito uma coisa dessas.”

Ao receber a notícia sobre a morte de Miguel, Vania, como é conhecida, lembrou de quando teve de levar o filho, que hoje tem 15 anos, para a casa em que trabalhava no Morumbi, na zona sul de São Paulo. “Quando ele era pequeno, levei ele para o trabalho e minha patroa disse que ele tinha quebrado a máquina de lavar e descontou meu dia de trabalho. Mas eu sabia que já estava quebrada, sabia que não tinha sido ele”, recorda. “Tem coisas que a gente entrega para Deus. Se isso tivesse acontecido comigo, não sei o que seria capaz de fazer.

Esta não foi a primeira vez que Vânia enfrentou uma situação de discriminação como empregada doméstica. “Era cuidadora de idosos em uma casa em que a empregada não podia se sentar na mesa, a patroa separava as coisas. Não podia lavar os talheres na mesma pia. A gente se sente humilhada. Só porque a gente é pobre, empregada. Mas não podemos falar nada”, diz. 

“Ela tinha obrigação de olhar a criança”

"É uma irresponsabilidade", diz Ana Corrêa

“É uma irresponsabilidade”, diz Ana Corrêa

Arquivo pessoal

Para a diretora do sindicato das trabalhadoras domésticas do estado do Pernambuco, Ana Maria Corrêa, 60 anos, Sari Corte Real tinha a obrigação de cuidar de Miguel enquanto Mirtes passeava com seu cachorro. “É inadmissível, uma irresponsabilidade. É algo sem explicação”, afirma. “E se fosse filho dela? O que aconteceria? Faltou cuidado, faltou empatia. Mesmo se ela não gostasse de criança ou se ele estivesse mais agitado, a obrigação dela era tentar acalmá-lo.”

Ana, que trabalhou dois anos como empregada doméstica e hoje vive no Recife com a mãe, afirma que a morte de Miguel causa tristeza e indignação. “Quero conversar com todas as trabalhadoras domésticas que tenho contato. Fiquei revoltada. Temos que pedir justiça”, afirma. “Nessa hora penso na minha filha de 38 anos e na minha neta, de 11. Não tem palavras.”

Ao mesmo tempo, Ana pondera que grande parte das empregadas domésticas vivem em uma encruzilhada. “Entendo que para a maioria das trabalhadoras é difícil, muitas precisam do emprego e se sujeitam a qualquer coisa”, diz.

“Comecei aos 13 anos”

Filha de mãe paraibana e pai fluminense, Cleide começou a trabalhar como empregada doméstica ainda criança. “Aos 13 anos minha mãe e minha avó me colocaram para trabalhar na casa de uma família de confiança. Eu era babá de duas crianças.” Nessa casa, Cleide afirma nunca ter sofrido discriminação.

Depois de adulta, Cleide afirma que começou a trabalhar como diarista. “Fui passar uma roupa em uma casa e a mulher me colocou num quartinho que só cabia eu e a tábua. Era roupa até o teto, fiquei das 8h até as 19h passando roupa, só tomei café e não almocei. Não pisei lá nunca mais.”

Hoje, Cleide ajuda outras trabalhadoras a lutarem contra a discriminação e, apesar de escutar relatos impressionantes todos os dias, alguns ainda a chocam. “Conheci uma mulher que o marido desapareceu com os filhos dela e estava desesperada para procurar. Ela recebeu a ligação no meio do expediente que ele tinha levado as crianças para pedir dinheiro e quis sair para procurá-los”, lembra. “A patroa não deixou. Ela conta que nunca mais teve notícia dos filhos.”

Fonte: R7

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