Descoberta indica presença viking na América do Norte há mil anos

Um estudo publicado nesta quarta-feira (20) na revista científica Nature aponta, pela primeira vez, que é possível provar que os vikings estiveram no continente norte-americano há exatos mil anos.

Para afirmar que em 1021 havia presença do grupo no continente, pesquisadores usaram um método ainda pouco conhecido: analisaram impacto da radiação cósmica sobre madeiras encontradas em um sítio arqueológico.

A radiação cósmica está associada a tempestades solares, e estudiosos sabem que dois grandes eventos no passado poderiam ser usados como referência porque é conhecido que os raios por eles emitidos deixaram marcas em árvores.

Até hoje, o único local conhecido da ocupação dos vikings continua sendo L’Anse aux Meadows, uma baía no extremo norte da ilha de Terra Nova, no Canadá, onde permanecem as fundações em madeira de oito construções, de acordo com a agência AFP.

A travessia do Atlântico realizada por marinheiros escandinavos foi a primeira conhecida de um grupo europeu, muito antes de Cristóvão Colombo, que chegou mais ao sul e quase cinco séculos depois.

Análise em microscópio de pedaço de madeira encontrado na localidade de L’Anse aux Meadows.  — Foto: Petra Doeve/Nature
Análise em microscópio de pedaço de madeira encontrado na localidade de L’Anse aux Meadows. (Foto: Petra Doeve/Nature)

Mas, como observa o estudo publicado na Nature, a datação tradicional por carbono-14 realizada no século passado é mais do que imprecisa, em mais de 250 anos. No entanto, tudo indica que esse grupo fez uma ocupação breve e esporádica do local, segundo vestígios arqueológicos e as “Sagas”, textos semilendários que narram as epopeias dos vikings.

Método original

A equipe liderada por Michael Dee e Margot Kuitems, respectivamente professor de cronologia isotópica e arqueóloga no Centro de Pesquisa Isotópica da Universidade holandesa de Groningen, usou um método original para ampliar o conhecimento sobre a data da chegada dos vikings à região.

A Terra está constantemente sujeita à radiação cósmica, “que produz continuamente carbono-14 (uma forma mais pesada e muito mais rara do que o átomo de carbono) na alta atmosfera”, explicou Margot Kuitems à AFP. Essa forma de carbono “entrará no ciclo do carbono, que é absorvido pelas plantas por meio da fotossíntese”.

Às vezes, a radiação é muito mais poderosa: esses “eventos” de radiação cósmica elevam abruptamente o nível de carbono-14 na atmosfera.

Instalação viking reconstruída na localidade de L’Anse aux Meadows. (Foto: Glenn Nagel/Nature)

Tempestade solar

Um estudo japonês isolou dois desses “eventos”, em 775 e 993, cujos vestígios permanecem em árvores com idade bem conhecida. O súbito aumento do carbono-14 foi encontrado nas datas em questão em seus anéis de crescimento, aqueles círculos que vemos em um tronco cortado e que ajudam a determinar a idade da árvore.

A equipe de Margot Kuitems buscou, usando um espectrômetro de massa, o traço do evento de 993 em três amostras de pedaços de madeira retiradas do sítio de Anse aux Meadows. Especialistas canadenses determinaram que essas peças foram trabalhadas ali pelos ocupantes com ferramentas de ferro.

“Quando medimos a concentração de carbono-14 em uma série de anéis, encontramos um aumento acentuado em um deles e tivemos a certeza de que correspondia ao ano 993”, disse a cientista. Bastou então contar o número de anéis entre o anel do “evento cósmico” e o último localizado antes da casca, para determinar a data em que a árvore foi derrubada. Resposta: o ano de 1021.

A medição funcionou para dois pedaços de madeira, dos quais os cientistas puderam até especificar que um pertencia a uma árvore derrubada na primavera e outra no verão-outono.

O Centro de Pesquisa Isotópica está na vanguarda deste método original de datação arqueológica. Ele assinou um primeiro estudo sobre o assunto em 2020, datando precisamente uma estrutura arqueológica no sul da Sibéria, usando o evento cósmico de 775.

Segundo Kuitems, existe hoje um “consenso” para explicar esses picos de radiação cósmica por um “evento solar, como uma tempestade solar”.

Outro pico no ano 660 foi recentemente confirmado e poderia, por sua vez, servir como um “marcador” de tempo, graças à melhoria contínua na precisão dos espectrômetros de massa.

Fonte: Yahoo!

Scroll Up