“Mamãe, porque o papai morreu?”: como ajudar as crianças a entender a dor pela perda de um ente querido? – Por Lourival Panhozzi

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Se já é difícil para adultos, imagine para as crianças, que nem têm formado o conceito da perda. Todos experimentamos a morte e o sofrimento que ela provoca, de maneiras diferentes. Quando um ente querido morre, as crianças podem achar particularmente difícil se expressar e entender o que aconteceu.

Existem hoje várias organizações e grupos trabalhando para ajudar crianças a encontrar luz e significado no luto. Este texto foi elaborado e contém dados dos estudos de Stacey Hart, da instituição de caridade Grief Encounter.

Conhecendo o luto – É preciso que os adultos compreendam o processo de luto para que possam auxiliar as crianças e jovens através de seus próprios lutos e, assim, aliviar a dor causada naqueles que, em razão da juventude, não tiveram tempo de se preparar.

Geralmente os pais falam com os filhos sobre os cuidados que estes devem ter e de como devem se comportar em diversas situações, contudo, raramente incluem o tema morte e luto como uma realidade presente em nossas vidas.

É preciso que, mesmo antes do fato concreto, as crianças tenham conhecimento de que é possível reconstruir a vida após a morte de um ente querido. O luto surpresa, aquele do qual nunca se ouviu falar, é difícil para qualquer adulto, mais ainda para crianças. Elas têm um sentimento avassalador de confusão, medo e ansiedade junto com a dor, quando encontram o luto, sem nunca antes ter ouvido falar dele.

Como uma criança pode aceitar o fato de mamãe ter morrido repentinamente quando se tinha 12 anos?

Uma adolescente pode aceitar que seu pai nunca conhecerá seu noivo ou lhe dará novamente um beijo de boa noite?

Ninguém sabe exatamente quantas crianças são enlutadas a cada ano. Em alguns países dados são coletados sobre o número de filhos afetados pelo divórcio de seus pais, mas não o número afetado pela morte de um dos pais. O dia que conseguirmos levantar estes números, certamente ficaremos alarmados.

Como as crianças entendem a morte?

Crianças e adultos entendem a morte de maneiras muito diferentes. À medida que as crianças crescem e amadurecem, suas formas anteriores de pensar sobre a morte também mudarão. É essencial que os adultos tenham uma noção de como as crianças conceituam a morte em diferentes idades, para que, quando chegar a hora de falar sobre isso, elas possam responder de maneira apropriada à idade de desenvolvimento da criança.

As faixas etárias abaixo não pretendem ser exatas, mas representativas dos diferentes estágios de desenvolvimento. À medida que a criança cresce a sua percepção da morte muda, a compreensão desses estágios é crucial para dar as crianças e jovens o tipo certo de apoio.

De 0 a 2 anos

Até os dois anos de idade, uma criança terá pouco ou nenhum entendimento da morte, embora possa perceber emoções como a tristeza das pessoas ao seu redor. A partir de dois anos, as crianças começam a entender o conceito de uma pessoa que está morrendo, apesar de, no início, não entenderem sua permanência.

De 2 a 5 anos

Crianças de 2 a 5 anos de idade podem variar enormemente na compreensão do mundo e da morte. Muito provavelmente eles conhecerão as palavras ‘morte’ e ‘morrer’, mas certamente ainda não terão um entendimento real de sua permanência. Eles podem imaginar que a pessoa morta pode retornar ou que eles estão em um local físico real, como o céu. Geralmente, não há conceito de morte pessoal; a morte é algo que só acontece com outras pessoas. Eles podem começar a expressar preocupações de que adultos significativos também morrerão.

A partir dos 5 anos

À medida que as crianças crescem, começam a perceber que tem algo verdade chamado de morte e podem desenvolver um interesse crescente nos seus aspectos físicos e biológicos. Mas esse aumento da compreensão factual da morte é muitas vezes misturado com fantasias, como uma preocupação com esqueletos e fantasmas. O chamado “pensamento mágico”, que os faz  acreditar que podem fazer as coisas acontecerem – como acidentes e morte – pode ser confuso e assustador neste momento.

Adolescentes

Os adolescentes provavelmente são caracteristicamente imprevisíveis e voláteis em suas respostas ao ouvir que um ente querido morreu. Alguns podem querer estar próximos da família, ignorando a vida escolar e social. Outros, ao contrário, podem se distanciar de uma maneira que pode parecer ofensiva e rejeitadora. O grupo de colegas pode ser muito importante e os comportamentos de “representação” podem ser preocupantes para os cuidadores. É importante dar aos jovens espaço para processar suas emoções em mudança, ao mesmo tempo, manter os limites e as regras usuais que os ajudarão a se sentirem seguros em um momento tão confuso.

Ser honesto com as crianças de maneira apropriada à idade geralmente é a melhor abordagem, pois a imprecisão pode levar ao medo de que algo pior esteja sendo escondido delas. Também é importante que as crianças testemunhem pessoas que sofrem demonstrando emoções.

Mostrar que não há problema em chorar é bom para as crianças, caso contrário, elas mantêm seus sentimentos aprisionados. Por exemplo, se papai morreu e eles veem mamãe com o lábio superior rígido, segurando as emoções, eles podem pensar que precisam fazer igual, acreditando que não é bom mostrar seus sentimentos.

Da mesma forma, eufemismos  não mudam o fato que um óbito na família coloca a vidas de vários de seus membros de cabeça para baixo. Mas toda família precisa mostrar às crianças que ainda há uma vida a ser vivida.

Da aceitação ao ajuste

A palavra ‘aceitação’ é frequentemente usada para definir o último estágio do luto. Costuma-se acreditar que é aqui que devemos chegar depois de experimentar as muitas emoções diferentes em nossa jornada de luto. Nós devemos gerenciar as expectativas, e, obviamente, precisamos de um resultado positivo para nossas crianças e jovens. Então, se alteramos a palavra ‘aceitação’ para ‘ajuste’, podemos reconhecer que a vida nunca mais será a mesma, que haverá muitas mudanças e novos acontecimentos que poderão trazê-la novamente a normalidade.

O termo ‘ajustado’ deve aliviar a pressão dos enlutados. Não há problema em sentir raiva, tristeza, culpa, é sim, preciso saber que isso é perfeitamente normal.

Luz na dor – Quais são os aspectos positivos que podemos usar quando uma criança ou jovem experimenta a morte prematura de um dos pais ou irmãos, considerando que este é um momento em que a maioria das crianças se sentem pressionadas a encontrar alguma luz?

Todos sabemos frases ou histórias que nos remetem a bons pensamentos, elas existem para incentivar otimismo e positividade, assim sendo, o que pode ser útil e usado em uma morte prematura são  histórias reais ou imaginárias que levam as crianças a um cenário conhecido e acolhedor.

É necessário ancorar o aconselhamento sobre luto desde o primeiro momento. Crianças e jovens precisam de um espaço seguro, um local onde possam se expressar. Após a morte, o aconselhamento ajudará a resolver uma infinidade de questões e a atingir um grau de compreensão elevado.

Significado e apreciação – Quando você já passou pela devastação e perda de um dos pais ou irmãos e sofreu uma perda inimaginável, pode aprender a não se aborrecer com as pequenas outras coisas, apreciar o presente e estar atento às nuances que o tempo provoca.

Essa experiência pode lhe dar a capacidade de determinar o que é realmente importante na vida.

Caixas de memória

Uma caixa de memória pode ser uma ótima maneira de coletar e armazenar coisas preciosas relacionadas ao ente querido que morreu. A caixa pode ser preenchida com itens valiosos, como fotos, cartas, jóias – qualquer coisa que o lembre da pessoa.

Cada item terá uma memória especial anexada a ele. A caixa pode ser usada como uma oportunidade para conversar, compartilhar memórias e refletir sobre a pessoa que morreu.

Além disso, existem várias outras maneiras de permanecer conectado ao seu ente querido:

• Conversar com a pessoa que morreu é algo que muitos entristecidos fazem; pode trazer muito conforto durante os momentos que você mais sente falta deles.

• Mantenha a foto deles por perto. Isso geralmente ajuda a lembrar como essa pessoa continua a influenciar sua vida.

• Inclua-os em eventos e dias especiais, reconhecendo aniversários e datas comemorativas.

• Ao se deparar com decisões difíceis, imagine que conselho eles dariam a você. Visualize uma conversa com eles, o que eles teriam dito, para ajudá-lo a fazer grandes escolhas de vida um pouco mais fáceis.

• Mantenha algo que lhes pertencia ou que eles lhe deram. Você não pode guardar tudo (mesmo que às vezes seja muito difícil separar os pertences), mas escolher alguns itens significativos pode ser extremamente poderoso.

• Experimente a presença deles. É comum sentir a presença de um ente querido, embora nem todos se permitam esta experiência – por medo de resgatar sentimento de perda -, o que é um erro. Quando se sente a presença “deles” o espaço da dor é preenchido por uma saudade consciente.

A morte de um ente querido não é fácil pra ninguém, o sentimento de perda não tem data de validade, mas podemos sempre ajudar e nos ajudar se nos esforçamos para melhor compreender estes momentos. Para isto acontecer é preciso nos “ajustarmos” a ele.

Gosto de pensar que posso fazer feliz meus entes queridos que partiram, simplesmente me ajustando a minha nova vida sem eles. Por isso busco a felicidade todos os dias, no aprendizado do viver, porque sei que é isto que eles desejam e esperam que eu faça.

Quando nossos sentimentos são compartilhados com aqueles que amamos, estejam eles em quaisquer dos mundos, a divisão torna-se soma, e a resposta a criança que pergunta porque papai morreu é dada pelo entrelaçamento das energias.

* Lourival Panhozzi é empresário, Diretor Funerario – Pres. Abredif/Sefesp -, Diretor do CTAF, Sistema Prever e Solucard.

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