Casal permanece junto após acidente que deixou jovem acamado e sem fala: ‘Abandonar jamais’, diz namorada do interior de SP

Um acidente de moto há cerca de 2 anos mudou drasticamente a vida do jovem casal de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), Joyce Leme de Oliveira e João Paulo Trombelli, que têm 25 anos e namoram desde que se conheceram durante o ensino médio na escola.

Foi na véspera do feriado de Páscoa de 2019 que João bateu em um poste em alta velocidade. O impacto fez com que ele tivesse uma grave lesão no cérebro que o fez perder a fala e os movimentos do corpo. No entanto, mesmo diante da nova realidade, a namorada continuou ao lado dele e diz que encontra na força de João, a motivação para acreditar que ele ainda possa conseguir se recuperar.

“É difícil ter a nossa idade, ter planos e isso acontecer. Acho que agora já estaríamos casados, morando juntos, mas teve que ter essa pausa.Não penso em abandonar ele jamais, pela força de vontade que ele tem. acho que ele tem mais força por mim, que é o que me dá mais força de vontade para continuar.”

“Desde quando aconteceu o acidente eu digo que tenho uma paz tão grande de que ele vai ficar bem, acredito que pelo menos 80% ele vai voltar.”

Ao relembrar as circunstâncias em que o acidente aconteceu Joyce conta que o namorado decidiu ir para um churrasco com os amigos do trabalho, um dia antes da sexta-feira Santa, mesmo com ela e sua sogra, Denise Trombelli, discordando e insistindo para ele não ir. A mãe do jovem chegou até mesmo a ter um sonho na noite anterior em que ele sofria um acidente.

“A mãe dele não queria que ele fosse, eu não queria que ele fosse, mas ele queria. No dia do acidente ela disse que olhava pra moto e sentia algo ruim, porque ela tinha sonhado que ela mesma sofria um acidente de moto. E depois contou que os machucados dele foram iguais aos dela no sonho”.

Inicialmente os médicos diagnosticaram que João teve traumatismo craniano e uma grave lesão na coluna. Segundo Joyce, aparentemente, seu namorado não apresentava ferimentos graves, as lesões foram internas e o lado esquerdo do corpo foi o mais atingido. No entanto, João perdeu os movimentos do lado direito.

“De imediato ele teve traumatismo craniano muito grave e uma lesão grave na coluna. Os médicos diziam que tinha um ossinho para fora que poderia cortar a artéria, se descesse a cama hospitalar, ele podia morrer por conta do sangue acumulado. Ele estava muito inchado. Com um roxo muito grande no olho, bem na sobrancelha. Então por fora ele parecia bem, mas por dentro o estrago foi muito grande. Eles deram 72 horas de vida para ele”, explica Joyce.

Notícia do acidente

A notícia do acidente, antes mesmo da família saber a gravidade do que havia ocorrido com João Paulo, foi dada a Joyce pelo seu sogro, mas pouco antes a sensação de que algo não parecia bem, aconteceu quando ela sentiu um calafrio ao ver os bombeiros passando em frente ao local onde trabalha sem saber que era seu namorado quem estava sendo socorrido.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

A avó de João havia tentado ligar algumas vezes para Joyce, mas como ela estava no trabalho não atendeu às ligações. Quando o seu sogro insistiu e ligou, ela estranhou e atendeu. Ao ouvir a notícia do acidente, ela conta que saiu correndo em direção ao hospital.

“Eu trabalho perto da Santa Casa e estou acostumada a ver ambulâncias. Passou o Corpo de Bombeiros e eu senti uma friagem no peito, algo muito ruim, e eu pensei ‘quem quer que seja que Deus abençoe’. Foi aí que meu sogro me disse que ele tinha sofrido um acidente e ido ao hospital. Na hora eu sai correndo sem levar nada e nem avisar.”

A família ficou sabendo do acidente ao ver a foto do capacete de João em um site de notícias da cidade. De acordo com a jovem, eles tentaram ligar no celular dele, mas não atendia. Então, foram até o hospital para reconhecer ele.

Joyce recorda que chegando ao hospital, ela viu João Paulo de longe em uma maca e tentou se aproximar, mas não conseguiu e quando o médico liberou a família para vê-lo, apenas duas pessoas foram autorizadas a entrar e o seu sogro, cedeu o lugar para ela.

“Ele foi intubado e levado para a UTI e aí deixaram a gente ver ele, mas só autorizaram a entrada de duas pessoas e eu não parava de chorar porque queria ver ele. Ai meu sogro deixou eu entrar com minha sogra.”

Nova realidade

Joyce visita João todos os domingos e ambos encontram força um no outro para superar essa nova realidade — Foto: Joyce Leme de Oliveira/ Arquivo pessoal

Joyce visita João todos os domingos e ambos encontram força um no outro para superar essa nova realidade — Foto: Joyce Leme de Oliveira/ Arquivo pessoal

João foi transferido no mesmo dia para a UTI do hospital de Ourinhos e lá foram feitos todos os procedimentos para tentar salvar sua vida. Ele precisou fazer uma cirurgia e retirar as calotas cranianas devido ao inchaço da sua cabeça.

Um dreno também foi usado por muitos dias até que os médicos conseguiram restabelecer sua pressão intracraniana e as calotas foram recolocadas.

“No domingo de Páscoa ele piorou, a cabeça estava inchando mais ainda, precisou fazer uma cirurgia. Os próprios médicos falam que foi um milagre, porque a cirurgia demorou cerca de 6 horas. É uma cirurgia muito delicada, e achavam que ele não ia resistir.”

A internação de João Paulo durou cerca de 5 meses, segundo sua namorada, e nesse período tão difícil em que o estado de saúde dele oscilava com frequência e não sabiam se ele iria resistir, Joyce ia todos os dias ao hospital visitá-lo.

“Eu fui todos os dias visitar ele na Santa Casa, quando não podia ir com minha sogra, minha mãe levava. Cada dia era uma coisa. Tinha dia que tinha febre, colocava mais sedação, menos sedação. Quando ele estava na UTI, depois de um mês, precisou abrir nele a traqueostomia, porque ele não podia ficar tanto tempo entubado. Ele não tinha movimento em nada, mas aos poucos começou a acordar.”

Apesar de não falar mais, nas visitas a namorada e mãe acreditavam que João as escutava e quando ele estava acordado, os encontros eram sempre emocionantes.

“Eu e minha sogra chorávamos e ficávamos falando uma pra outra que ele estava vendo, porque ele estava apenas com os olhos abertos. Os médicos acreditavam que ele não ouvia, mas a gente acreditava que sim, porque quando falávamos, os batimentos dele subiam, aparecia no aparelho. Ele virava e olhava pra gente quando chegávamos.”

Quando apresentou melhora, João foi transferido novamente para Santa Cruz do Rio Pardo e lá ficou apenas por algumas semanas até que sua família conseguisse providenciar todos os equipamentos que ele iria precisar para começar a sua nova vida em casa.

“Ele recebeu alta e veio pra Santa Casa. Ele ficou na enfermaria por algumas semanas, porque precisava arrumar tudo na casa dele, cama hospitalar, lixos corretos, oxigênio. A cama que a gente providenciou, o cilindro e essas coisas, eles forneceram. Ele foi pra casa e melhorando a cada dia, íamos ensinando e ele ia melhorando”, relembra Joyce.

Rotina em casa

Passados dois anos desde o acidente, João aprendeu a se comunicar com a família piscando. Neste mês de junho, ele aguarda para fazer uma nova cirurgia e colocar as calotas cranianas que precisaram ser retiradas definitivamente, depois que ele teve uma inflamação.

“Graças a Deus o João tem uma força de vida muito grande e tudo que ensinamos ele vai aprendendo, vamos lembrando e, graças a Deus, ele está muito bem, em vista da gravidade do que aconteceu com ele. Ele responde a gente por piscada, ensinamos pra ele a hora e ele dá 10 piscadas, por exemplo, pra dizer que são 10h”, fala Joyce.

As visitas da namorada não são mais diárias como no início do seu retorno para casa. Isso porque, ela conta que mora longe da casa de João e desde o começo do namoro, há mais de 8 anos, quando terminaram a escola, eles se viam apenas de fim de semana.

Agora, João Paulo recebe Joyce apenas aos domingos. Como ela trabalha em contato com o público e prefere não arriscar indo até lá com mais frequência devido à pandemia da Covid-19 e esse é o momento em que o casal consegue ficar junto e interagir de alguma forma.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

“Para proteger ele, por conta da pandemia, eu só vou no domingo e quando é feriado eu fico na casa dele também. A enfermeira deixa nós dois sozinhos, a gente se diverte, tira foto, ele faz careta, é uma belezinha. Ele tem uma irmã de 9 anos e ela liga quase todos os dias pra eu ver ele, porque não vou, mas também não quero ficar longe.”

A presença de Joyce se tornou uma motivação para João e, quando ela está presente, a família sente que ele fica mais entusiasmado e obediente com sua mãe e a enfermeira, já que, segundo ela, em alguns dias ele sente mais dificuldade e demonstra isso.

“Quando eu estou lá muda tudo. Falam que ele tem que fazer as coisas por causa da Joyce e ele obedece. Ele tem os dias dele também, não é fácil, e por isso eu acredito que eu dou uma força muito grande pra ele. Eu adoro ficar lá.”

Apesar de ter acompanhamento com a fonoaudióloga, fisioterapeuta e fazer terapia ocupacional devido ao plano do convênio, ele precisa de um tratamento mais intensivo para progredir. “Ele está muito atrasado na parte dos movimentos, no braço esquerdo ele rompeu o nervo e não tem movimento, o lado direito é mais rígido e só a perna esquerda ele que ele chuta”, explica.

Por isso, a família de João decidiu criar uma campanha para arrecadar dinheiro para conseguir avançar com o tratamento do filhoe consultá-lo com um médico de Curitiba que tem experiência em operações de traqueostomia e pode ajudar João a voltar a falar, segundo a sua mãe.

Família criou campanha para arrecadar dinheiro e ajudar João na sua recuperação — Foto: Redes Sociais

“A campanha é principalmente por uma cirurgia, porque ele tem uma lesão na traqueia e minha sogra não aceita o diagnóstico dos médicos daqui de que ele não vai mais falar e ela foi atrás de um especialista em Curitiba. Ele fez uma consulta por chamada de vídeo e disse que há inúmeras formas de ajudar.”

Mas para isso, é preciso que ele vá até a cidade e seja submetido a diversos exames, para que o médico possa avaliar o seu quadro. A possibilidade dessa cirurgia é uma esperança para toda a família e para Joyce é a chance de conseguir ouvir o que o seu namorado sente nesse momento tão difícil e ter a chance de compreendê-lo, como era antes.

“É difícil não saber o que se passa com ele, o que ele realmente sente, porque ele não fala. No final do ano de 2019, depois que ele sofreu o acidente, minha família se reuniu em uma chácara, como fazemos todos os anos, e fizemos uma chamada de vídeo com ele e, pela primeira vez, ele se emocionou. E ele nunca mais chorou”, diz Joyce.

Fonte: Tv Tem

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