Botucatuense Leilah Assumpção lança autobiografia em que revela múltiplas facetas de uma mulher que saiu do interior para viver na capital

AdSense Postagem 01

Postagem Única 01 Mobile

Em 1971, durante uma recepção em Londres, a produtora Ruth Escobar puxou Laurence Olivier pelo braço e colocou uma de suas amigas diante daquele que é considerado o maior ator inglês de todos os tempos. “Quero lhe apresentar a dramaturga brasileira Leilah Assumpção”, disse, sem cerimônia. O artista fechou a cara, irritado, e cortou qualquer assunto. “Bonita demais para ser dramaturga”, respondeu ele, sem sequer cumprimentá- la. Maria de Lourdes Torres de Assunção, a Leilah, se sentiu humilhada e precisou trabalhar muito em seus textos e no divã para deixar de se importar com comentários machistas. “Acho que só agora penso que cheguei a algum lugar”. afirma. “Minha obra mostra que meu olhar sobre a opressão feminina não estava errado, e talvez ela nos acompanhe até hoje.”

 (Divulgação/Divulgação)

Leilah foi a voz de seu tempo ao perceber que, a partir do fim da década de 60, precisava escrever sobre o comportamento das mulheres de sua geração. “A gente lutou pela igualdade de oportunidades para usufruir nossas diferenças em relação aos homens”, declara. “Hoje, temos um outro feminismo, tão plural em suas reivindicações que, às vezes, tropeça em alguns ruídos”, completa. O marco inicial da carreira foi a peça Fala Baixo Senão Eu Grito, protagonizada por Marília Pêra e Paulo Villaça em 1969, sob a direção de Clóvis Bueno, seu primeiro marido. Para celebrar cinco décadas de teatro, a dramaturga paulista de 76 anos lança a autobiografia Memórias Sinceras (Sá Editora, 224 páginas, 49,90 reais), uma narrativa em primeira pessoa em que trata de temas leves e tragédias com similar franqueza. A sessão de autógrafos está prometida para o dia 23, às 16h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

 No começo dos anos 70, durante temporada em Londres

No começo dos anos 70, durante temporada em Londres (Arquivo Pessoal/Reprodução/Veja SP)

Desde cedo, Leilah entendeu que precisaria ser forte. Perdeu a mãe aos 13 anos e viu o pai beber além da conta. Chegou a São Paulo para completar o curso de pedagogia na USP e, morando em um pensionato na Avenida Angélica, encontrou inspiração para suas personagens. “Eram mulheres de 30 anos, virgens, vivendo na cidade grande, mas com a mesma mentalidade interiorana, assim como a Mariazinha de Fala Baixo…”, compara a autora, nascida em Botucatu.

 Leilah (à esq.), em 1968, como manequim de Dener e com as modelos Marilu e Jô

Leilah (à esq.), em 1968, como manequim de Dener e com as modelos Marilu e Jô (Arquivo Pessoal/Reprodução/Veja SP)

Beleza realmente nunca lhe faltou, e o estilista Dener Pamplona de Abreu ficou fascinado pela jovem de 1,73 metro, que, por causa das pernas longas, aparentava muito mais ao desfilar para sua clientela. “Virei modelo por vaidade, mas, graças a isso, pude me sustentar e escrever as primeiras peças”, recorda ela, que também trabalhou para o costureiro Clodovil Hernandes. “Dener era pura invenção, nos enrolava em panos e criava vestidos, enquanto o Clodovil, também genial, era muito metódico.”

Leilah acumulou prestígio e prêmios com as peças Roda Cor de Roda, Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam que Eu Sou Donzela e Lua Nua. Enfrentou uma síndrome do pânico quando nem se tocava no assunto e, perto dos 40, conheceu um amor tranquilo ao lado do banqueiro Walter Appel. “Ele soube investir bem o dinheiro que ganhei no teatro”, brinca. Entre idas e vindas, Leilah e Appel viveram juntos mais de três décadas e são os orgulhosos pais de Camila, de 38 anos, que, além de jornalista, é dramaturga.

 Ao lado da única filha, a jornalista e dramaturga Camila Appel

Ao lado da única filha, a jornalista e dramaturga Camila Appel (Arquivo Pessoal/Reprodução/Veja SP)

O fim dos anos 2000 foi duro para Leilah. A bela mulher precisou lidar com uma infecção que quase a deixou cega e transfigurou parte de seu rosto. A chegada dos netos Otto e Anna, hoje com 5 e 3 anos, respectivamente, lhe renovou a autoestima. “Admiro a capacidade de minha mãe para sair de situações embaraçosas através do humor, falando o que pensa. E, se na adolescência esse seu jeito me constrangia, eu passei a admirá-lo”, afirma Camila. Leilah provoca a filha dizendo que o melhor da maternidade é ser avó e se sente emocionada ao ouvir a pequena Anna brincando com os sapatos de salto da mãe. “É uma nova geração chegando por aí e me dando inspiração para escrever”, diz ela, que dá os últimos retoques na peça Mergulho no Mistério Dela e quer oferecê-la à atriz Vera Holtz. Aliás, Vera está lotando teatros em Portugal ao lado de Marcos Caruso em Intimidade Indecente, outro sucesso de Leilah.

Fonte:Veja SP

Postagem Única 02 Mobile

Anunciantes