Botucatu: Polícia abre inquérito por injúria racial após veterinária ter palestra online interrompida por ‘sons de primatas’

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A Polícia Civil abriu um inquérito por injúria racial para investigar o caso de uma médica veterinária que foi interrompida por “sons de primatas” enquanto ministrava uma palestra online para estudantes da Unesp de Botucatu (SP).

A situação ocorreu no último dia 18. Talita Santos, especialista em pets exóticos que atende em São Paulo, contou ao G1 que estava dando uma aula para o Grupo de Estudos de Animais Selvagens da universidade quando a palestra foi invadida.

“Abriram os microfones, como se fosse entrar uma dúvida, mas eu não estava entendendo. Começou uma poluição sonora muito grande, barulho, música, sons de primatas, falas do presidente Bolsonaro”, lembra Talita.

De início, Talita explicou que não entendeu o que estava acontecendo e pensou que poderia ser um vírus do computador dela. No entanto, depois de conversar com o organizador da palestra e outras pessoas que participaram da chamada de vídeo, percebeu que se tratava de um ataque racista.

Veterinária Talita Santos deu palestra para grupo da Unesp de Botucatu — Foto: Talita Santos/Arquivo pessoal

Veterinária Talita Santos deu palestra para grupo da Unesp de Botucatu — Foto: Talita Santos/Arquivo pessoal

Por causa disso, a veterinária decidiu procurar a polícia em São Paulo. No último fim de semana, ela foi até uma delegacia comum, mas não conseguiu registrar o boletim de ocorrência porque não tinha delegado disponível, segundo Talita.

Já nesta segunda-feira (22), ela foi até a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) e fez o BO para que a polícia tente encontrar os responsáveis pelo ataque e puni-los.

“Fui muito bem recebida [na delegacia especializada]. Lá, a escrivã me recebeu, quis saber todos os detalhes e eu passei o vídeo que eu tinha”, conta Talita.

Veterinária tem palestra online interrompida por ‘sons de primatas’

Um vídeo enviado ao G1 mostra o momento em que falas de um homem, risadas, sons de macacos e uma música atrapalharam a live. (Veja acima)

Segundo a veterinária, outras pessoas que estavam na chamada de vídeo relataram que também foram exibidas imagens de primatas e do presidente durante a palestra, mas ela não conseguiu ver, já que estava com a tela aberta nos conteúdos que ensinava.

“Agora está tudo na mão deles [da polícia]. Depois eu também consegui um vídeo na íntegra porque tinham alunos gravando de maneira informal, através do celular. Aí eles disponibilizaram esses vídeos e bate exatamente com a minha descrição, então já enviei para a delegacia e agora é aguardar o que vai acontecer”, explica a veterinária.

Investigação

A especialista disse que o link da palestra era aberto e qualquer pessoa poderia ter acesso. No entanto, ela não conseguiu identificar quem entrou na chamada e fez o ataque.

Ao G1, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pela 2ª Delegacia de Repressão aos Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância (Decradi) do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Segundo a SSP, a equipe da unidade está analisando a gravação da reunião e irá realizar a oitiva do responsável. Disse ainda que diligências estão em andamento para identificar o autor.

“Espero que os culpados tenham nome, é o que a gente sempre espera: apontar mesmo quem são as pessoas que fizeram isso e que elas sofram as penalidades de acordo com os atos delas. Então fico na esperança, mas o primeiro passo já foi dado. Gostei muito do atendimento da delegacia especializada, deram uma boa atenção para o caso e fico na expectativa. Fico muito mais aliviada de ter registrado a ocorrência.”

Apoio da Unesp

De acordo com Talita, o grupo de estudos da Unesp fez uma reunião para decidir como iriam tratar o caso e recebeu bastante apoio dos colegas. A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia do campus divulgou uma nota de repúdio à ação contra a médica veterinária.

No texto, a FMVZ reforçou que “tal ação, claramente organizada, além do seu caráter criminoso, tem as marcas da intolerância, da covardia e do ódio à disseminação e a promoção do conhecimento, único caminho possível para a construção de uma sociedade mais justa e democrática”.

Informou também que a “Diretoria da FMVZ se solidariza com a palestrante ofendida e os participantes agredidos durante essas lamentáveis ocorrências e informa que seguirá colhendo informações que possam embasar providências concretas em relação a tais delitos, além de medidas que previnam ações dessa natureza”.

Médica veterinária atua com pets exóticos em São Paulo — Foto: Talita Santos/Arquivo pessoal

Médica veterinária atua com pets exóticos em São Paulo — Foto: Talita Santos/Arquivo pessoal

A Reitoria da Unesp, por meio da sua assessoria de imprensa, também reforçou o repúdio da universidade a essas ofensas e destacou que está empenhada em identificar os autores.

Depois do ocorrido, Talita disse que recebeu bastante apoio do grupo de estudos da Unesp e que vai registrar um boletim de ocorrência para que a polícia tente encontrar os responsáveis e puni-los.

Afrovet emitiu nota de repúdio após ataque racista durante palestra em Botucatu — Foto: Instagram/Reprodução

Afrovet emitiu nota de repúdio após ataque racista durante palestra em Botucatu — Foto: Instagram/Reprodução

Nas redes sociais, a Afrovet, que é uma rede de graduandos e médicos veterinários negros, também publicou uma nota de repúdio ao ataque sofrido por Talita.

“Sinceramente, não é diferente de outros ataques racistas. Não é a primeira vez que acontece, nunca é agradável, mas a vida já calejou bastante. É sempre uma situação ruim, mas ao mesmo tempo não foi algo que me afetou emocionalmente ou me fez duvidar da minha capacidade de trabalho”, completou a veterinária.

Fonte: G1

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