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Neusa da Silva Campos, de 77 anos, é paciente da Rede de Reabilitação Lucy Montoro em Botucatu desde dezembro de 2023, quando iniciou suas sessões de reabilitação após ter as duas pernas amputadas abaixo do joelho em decorrência de complicações do diabetes e de uma trombose. No entanto, com muita dedicação e resiliência, esse período difícil deu lugar a uma fase de descobertas por meio da arte. Entre uma sessão e outra de reabilitação, Neusa resgatou o gosto pela pintura e chegou a promover uma exposição com as suas obras nos corredores da unidade.
Os quadros puderam ser conferidos pelos corredores da unidade, onde uma coleção com mais de 30 obras produzidas por Neusa ao longo de sua vida foi exposta durante alguns dias. Essa exposição, destinada ao público interno, representou não apenas sua trajetória artística, mas também sua resiliência e redescoberta da vontade de viver.
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Arte que resgata
O primeiro contato de Neusa com as pinturas foi ainda na juventude. No entanto, devido aos problemas de saúde enfrentados, fez com que ela perdesse o encanto pela arte. Mas foi durante o seu tratamento no Lucy Montoro Botucatu, a partir de 2023, quando estava debilitada e emocionalmente abalada, que reencontrou na arte a força necessária para se reerguer. Ela compartilhou a sua história de vida com as profissionais que fazem parte do seu protocolo de tratamento e nasceu a ideia de retomar a produção das obras. “Aqui, me ajudaram a me restabelecer e a voltar a ser quem eu era. Me recuperei, comecei a desenhar, desenhar, desenhar e hoje estou aqui, firme e forte!”, afirma Neusa.
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Entre linhas, formas e cores
Neusa compartilha como é o seu processo criativo: quando imagina um desenho, a obra já vem clara em sua mente, com as formas, cores bem definidas e detalha episódios que marcaram sua trajetória. Em uma de suas obras, a imagem desenhada no papel apareceu para ela na xícara de café. Em outro momento, viu a inspiração de uma de suas pinturas surgir a partir de uma moeda. A artista já chegou a pintar retratos de pessoas desconhecidas e que, inexplicavelmente, viria a conhecer no futuro.
Suas obras levam de dois a três dias para serem feitas, pois a artista utiliza giz molhado em suas composições, o que exige que o desenho seja feito em etapas para que o material seque. Ela recorda que, em datas comemorativas, sua arte sempre aflorava, resultando em novos desenhos e esculturas de argila.
Uma jornada de muita superação
Sua vida também foi marcada por muitos desafios superados. Mãe solo, criou seus quatro filhos sozinha após a perda do marido, e desde sempre trabalhou muito para conseguir sustentar sua família. Mesmo com os inúmeros obstáculos enfrentados ao longo dos anos, a arte sempre a encontrava de alguma forma, transformando suas inspirações em lindas obras.
A importância do atendimento humanizado
Tereza Zulmira Cresti, enfermeira da unidade, cuida da paciente desde o início do seu tratamento, acompanhando todas as fases da sua evolução. A profissional reafirma como a gentileza é o diferencial do cuidado oferecido aos pacientes da Rede Lucy Montoro e foi a chave para conquistar a confiança de Neusa no início de sua reabilitação. “O paciente chega muito machucado, em sofrimento. Eles chegam chateados e magoados, pois não queriam estar passando por uma amputação. Com jeitinho, nós vamos conversando, unindo as especialidades de todos os profissionais da unidade, montando um verdadeiro quebra-cabeça para entender quem é esse paciente, pois ele não é só uma ‘amputação’”, afirma a enfermeira.
O incentivo que Neusa precisava para voltar a pintar
Foi na rotina dentro da unidade que a psicóloga Daiane Baldo Apolinário, uma das profissionais que cuida da reabilitação de Neusa, descobriu o amor da paciente pela arte, mas que, em decorrência do momento de dor que estava vivendo, ficou adormecido. Mesmo emocional e fisicamente debilitada, Neusa foi incentivada pela equipe a retornar à prática artística. “Após estabelecermos um vínculo, ela me contou sobre os desenhos que fazia. Fui descobrindo que essa capacidade criativa dela vem desde a juventude, e que esse é um ponto muito importante: a psicoterapia como um resgate afetivo e de suporte na recuperação”, compartilha a psicóloga.
O brilho nos olhos pela arte estava de volta
Após os primeiros meses de tratamento, Neusa começou a se recuperar gradualmente, aceitando sua nova condição física e se dedicando a diversos exercícios para fortalecimento. Nesse processo, aprendeu que a vida poderia continuar bela, mesmo sob uma nova perspectiva. Com o incentivo e o apoio da equipe da unidade, redescobriu a arte como parte essencial de sua trajetória.
Retomou a pintura, criando novos quadros ainda mais coloridos e expressivos. Neusa compartilha que foi no Lucy Montoro Botucatu que compreendeu que sua vida não havia chegado ao fim e que a amputação de suas pernas representava apenas um capítulo de sua história. Hoje, atribui sua felicidade e sente gratidão aos profissionais que, com tanta dedicação, a ajudaram a reencontrar o sentido de estar viva. “Desejo que Deus acompanhe eles e dê esse sentido de humanidade. Se todos os lugares forem iguais aqui, todas as pessoas que precisam de cuidado estão no céu, porque aqui o pessoal é maravilhoso, acolhedor, atende sempre com sorriso no rosto, sempre se dedicam a entender o nosso sentimento, quando a gente não está bem” completa Neusa.