Após perder pai para Covid, fotógrafa oferece ensaio especial para Dia dos Pais: ‘Queria que eu continuasse’

“Acho que ele iria querer que eu continuasse com meu trabalho. É uma forma de homenagear meu pai também, porque as fotos dele são minhas melhores lembranças”. Foi com esse pensamento que a fotografa Isabela Ribeiro, de 28 anos, decidiu realizar ensaios fotográficos com pais em comemoração ao dia deles dois meses depois de perder o pai, vítima da Covid-19.

A jovem, que nasceu em Ourinhos (SP), mas atualmente mora em Foz do Iguaçu (PR), conta que tinha visto o pai pela última vez no final do ano passado, no dia do seu casamento, e pensou em desistir de fazer ensaios para data.

“Fazia sete meses que eu não via meu pai quando ele morreu, então eu já estava com muitas saudades dele e eu achei que se fizesse esses ensaios, tirasse fotos de momentos assim de pais que estão vivos e de filhos que estão tendo essa oportunidade, é até triste e feio dizer isso, mas eu estava com medo de sofrer muito”, desabafa.

A última vez que a fotógrafa tinha visto o pai foi no final do ano passado no dia do seu casamento — Foto: Isabela Ribeiro / Arquivo pessoal
A última vez que a fotógrafa tinha visto o pai foi no final do ano passado no dia do seu casamento — Foto: Isabela Ribeiro / Arquivo pessoal

O pai da fotógrafa, o jornalista e publicitário Fernando Cavazele, foi secretário de Cultura e autor do hino de Ourinhos. Ele morreu no dia 5 de junho aos 58 anos após ser internado com Covid-19. Isabela conta que o pai tinha tomado a primeira dose da vacina dias antes e a morte dele foi totalmente inesperada.

“Ele era uma pessoa muito jovem, de espírito jovem, com saúde e pegou uma doença que todos os filhos praticamente já tinham pego, o irmão dele, que é mais velho que ele, pegou e está aí ‘inteirão’ e ele pegou e morreu em uma semana. Eu tive um amigo que teve três paradas cardíacas e sobreviveu, meu pai teve uma e não resistiu.”

Além de Isabela, Fernando tinha outros cinco filhos, o mais novo de 3 anos, e um neto. O filho mais novo, Theo, fez junto com a mãe uma despedida simbólica, já que não pôde participar do velório e enterro.

Lembranças eternas

“Eu achava que ia ter ele até ficar velhinho, então acho que as pessoas precisam entender isso, que nossos pais não são eternos. Então a ideia de fazer o ensaio é dar oportunidade dos filhos registrarem esses momentos enquanto eles ainda têm oportunidade.”

Uma oportunidade que Isabela não teve esse ano. A fotógrafa lembra que o pai fez aniversário esse maio desse ano e como ela não comemorar pessoalmente com ele, estava planejando uma homenagem para o dia dos pais.

Isabela, o pai e os irmãos; Fernando tinha 6 filhos e um neto e morreu de Covid-19 aos 58 anos — Foto: Isabela Ribeiro / Arquivo pessoal
Isabela, o pai e os irmãos; Fernando tinha 6 filhos e um neto e morreu de Covid-19 aos 58 anos — Foto: Isabela Ribeiro / Arquivo pessoal

“Eu pensei no aniversário dele vou só mandar uma mensagem e faço algo maior, uma homenagem no dia dos pais, só que não deu tempo, ele morreu antes. Hoje as fotos, os vídeos o que me deixa matar as saudades dele.”

“Eu olho as fotos dele e sinto que ele está aqui. Porque eu não consigo sem isso lembrar os detalhes dele, parece que quando pessoa morre ela vai desparecendo e a fotografia resgata isso, a fotografia e os vídeos, quando vejo os vídeos dele eu ouço a voz dele.”

Para que outras pessoas pudessem registrar os momentos felizes e terem essas lembranças que Isabela ofereceu os ensaios com pais e filhos.

“Uma das minhas maiores dores é saber que meus filhos não vão conhecer meu pai, então a forma deles saberem como ele era é através das fotos e dos vídeos. Eu perdi meu avô quando era bem pequena e ele era uma pessoa muito distante para mim, porque não tinham fotos, meu pai não falava muito dele e eu não quero que meu pai seja uma pessoa distante pro meus filhos. Quero que saibam do legado e entendam porque eu sou tão apaixonada por ele.

Coragem para seguir

Fotógrafa se inspira no legado deixado pelo pai para continuar trabalhando — Foto: Isabela Ribeiro/ Arquivo pessoal
Fotógrafa se inspira no legado deixado pelo pai para continuar trabalhando — Foto: Isabela Ribeiro/ Arquivo pessoal

Depois da perda do pai, Isabela conta que seguir com o trabalho foi e ainda é uma das formas de tentar superar a situação, já que o pai era um exemplo para ela e os irmãos que acabaram escolhendo profissões em áreas semelhantes da que o pai atuava. Assim como Fernando, Isabela também é formada em jornalismo.

“Todo mundo já perdeu alguma familiar, eu perdi meus avós, uma amiga muito querida, mas acho que perder pai ou mãe é uma dor indescritível, a como se a gente perdesse a nossa origem. Então tem dias que eu nem quero sair da cama, mas meu pai era uma pessoa que fazia tudo com muita excelência e gostava muito do trabalho dele, então eu coloquei uma foto dele na minha mesa para que eu faça as minhas coisas da melhor maneira possível porque assim eu vou seguir o legado dele.

Também músico, o pai de Isabela é o autor do hino da cidade de Ourinhos e uma das lembranças que a ajuda a seguir em frente é um vídeo que o pai gravou cantando uma música para um amigo que havia perdido a esposa para um câncer.

“Toda vez que ouço ele cantando essa música é como se ele tivesse falando para eu seguir em frente, para não desistir apesar da dor, para me lembrar que a gente tem um propósito nessa vida e se eu fiquei ele se foi, é porque o propósito dele foi cumprido e ele está bem, em algum lugar, ele está bem e um dia vamos encontrar.”

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