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Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade de Lincoln reforça a ideia de que humanos e cães evoluíram lado a lado, e vai além: compartilham bases genéticas que influenciam comportamento e emoções. A análise, que avaliou o código genético e o comportamento de 1,3 mil golden retrievers, identificou 12 genes associados a traços comportamentais equivalentes em humanos.
“Os achados são realmente impressionantes, eles fornecem evidências sólidas de que humanos e golden retrievers têm raízes genéticas comuns para o comportamento”, disse Eleanor Raffan, veterinária e professora assistente de fisiologia que liderou a parte de Cambridge da pesquisa.
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O estudo parte de uma constatação conhecida, mas pouco explorada em nível genético: a longa convivência com cães moldou ambas as espécies. Como destaca o professor Daniel Mills, da Universidade de Lincoln, em artigo sobre o estudo no site The Conversation, “poderia até ser argumentado que não existe algo como ‘sociedade humana’ sem incluir os animais como parte dela”. Segundo ele, há um crescente entendimento de que essa relação configura um processo de coevolução.

Conexões emocionais
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Entre os genes identificados, alguns apresentaram funções próximas nas duas espécies, como respostas ligadas à ansiedade. Em outros casos, as equivalências foram menos diretas, mas ainda assim consistentes quando analisadas sob uma perspectiva evolutiva.
Um exemplo citado pelos autores é o gene ADD2: em cães, está associado ao medo de estranhos; em humanos, à depressão. “Um traço central da depressão é o retraimento social”, explica Mills. Em animais altamente sociáveis como os cães, esse mesmo mecanismo pode se manifestar como ansiedade diante de desconhecidos.
Outro conjunto de genes relacionou-se à capacidade de treinabilidade nos cães. Em humanos, os genes equivalentes aparecem ligados tanto à inteligência quanto à sensibilidade a estar errado. Mills explica que, embora cães não projetem cenários abstratos como humanos, variam em sua sensibilidade a experiências desagradáveis, o que pode sustentar um elo biológico entre os dois comportamentos.
Implicações para a saúde mental
A pesquisa surge em meio ao crescente interesse por possíveis paralelos entre problemas comportamentais em cães e condições humanas, como transtornos de ansiedade ou traços associados ao espectro autista. “A genética governa o comportamento, tornando alguns cães mais predispostos a achar o mundo estressante”, afirma Enoch Alex, primeiro autor do estudo. “Se as experiências de vida reforçam isso, eles podem agir de um modo que interpretamos como ‘mau comportamento’, quando na verdade estão angustiados.”
Com a alta prevalência de problemas relacionados ao estresse em cães de companhia, especialmente em países como os Estados Unidos, os autores sugerem que estudos comparativos podem abrir caminhos para compreender aspectos da psiquiatria evolutiva e de condições que afetam tanto humanos quanto animais.
“Embora existam diferenças claras na forma como humanos e cães experimentam emoções, isso não diminui a importância de condições que refletem sofrimento”, afirma Mills. Ele aponta que estudos como este reforçam o papel dos cães como modelos naturais para investigar saúde mental em humanos.
Fonte: Um Só Planeta