Botucatu: Aos 97 anos, botucatuense Antônio é a história viva dos veteranos da 2ª Guerra

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O dia era 15 de abril de 1945. O local, o pequeno município de Montese, norte da Itália. Durante a Batalha de Montese, que fazia parte da ofensiva dos Aliados na Itália, já quase no fim da 2ª Guerra Mundial, um homem é ferido.

Do alto de uma montanha, um morteiro nazista espalha estilhaços que movem o cadáver de um sargento americano morto um dia antes. Embaixo desse guerreiro tombado, há uma granada, que explode e atinge a perna direita de um soldado brasileiro.

Esse soldado chama-se Antonio Fermiano, na época um botucatuense com 22 anos. O ferimento não é tão grave. Antonio passa alguns dias na enfermaria, podendo voltar a atuar semanas depois.

Por conta desse fato é condecorado pelo governo de Getúlio Vargas com a Medalha “Sangue do Brasil” e com o Diploma “Ferimento em Ação”, dedicado aos combatentes feridos diretamente pelas mãos do inimigo durante conflito.

Essa é apenas uma das histórias que compõem a rica biografia de seu Antonio, hoje com 97 anos.  Com quase dois metros de altura, não pesando menos de 100 quilos, encontramos esse homenzarrão acomodado em uma cadeira de rodas, Ele não mora mais em Botucatu, desde 1944m quando se mudou para Campo Grande. Antônio mora no bairro Residencial Sírio Libanês.

Com uma touca, blusa de lã, meias grossas, manta fina no colo, parece sentir mais frio que os 23° registrados na manhã que o entrevistamos. Na verdade, um clima bem mais agradável que as temperaturas negativas da Europa no período de inverno. “É que tenho muito frio nas extremidades”, justifica ele sorrindo.

Antonio acabara de sair de uma breve internação hospitalar por causa de um mal estar. Totalmente recuperado, está na cadeira de rodas para evitar esforço por enquanto. “Se deixar ele mexe tudo aqui, esse jardim que você está vendo é tudo ele que cuida”, explica o filho Valdimir Fermiano, de 50 anos.

Seu Antonio Fermiano é veterano da 2ª Guerra Mundial. Integrou a FEB (Força Expedicionária Brasileira), uma força militar aeroterrestre constituída por mais de 25 mil homens, que durante a guerra foi responsável pela participação do Brasil ao lado dos Aliados na Campanha da Itália, em suas últimas fases.

Parte do Regimento Sampaio em solo italiano. Antonio é o último da esquerda em pé (Foto: Arquivo Pessoal)

Natural de Botucatu, interior de São Paulo, veio obrigatoriamente para Campo Grande servir no começo de 1944, já com o governo brasileiro vislumbrando o envio de tropas à Europa. Depois de breve treinamento, pegou o trem até o Rio de Janeiro, onde embarcou em navio norte-americano rumo à Itália, em setembro de 1944.

Segundo estimativa da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira de Mato Grosso do Sul (ANVFEB – MS), cerca de 1.000 homens do que hoje é Mato Grosso do Sul, integraram o 1°Regimento de Infantaria ou Regimento Sampaio, um dos três que formaram a FEB.

A FEB ficou responsável, mais especificamente, por tentar junto a outras tropas, o desmantelamento da chamada Linha Gótica, no norte da Itália, uma importante trincheira de defesa da Alemanha Nazista, instalada em um complexo montanhoso de quase 300 km.

A primeira experiência de batalha de Antonio em solo italiano, porém, não foi em Montese, onde se feriu, foi em Monte Castelo, na conhecida Tomada de Monte Castelo, em 21 de fevereiro de 1945, primeiro grande feito das tropas brasileiras em solo europeu, ocorrida depois de três meses de batalha.

 “A Batalha de Monte Castelo foi muito complicada por conta da posição privilegiada dos alemães. É uma cadeia montanhosa que favorecia a defesa nazista. Por isso os três meses de batalha”, explica vice-presidente da ANVFEB – MS, Wellington Corlet dos Santos, também coronel da reserva do Exército e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul.

Valdimir, filho de Antonio ouve as histórias do pai desde criança (Foto: Silas Lima)

É impressionante a memória de Antonio para fatos que ocorreram 75 anos atrás. Ele não chama, por exemplo, a região de Montese por esse nome, chama de “cota 758”, código criado para identificar o local. No caso de Monte Castelo, lembra da falta de piedade dos alemães.

“Eles matavam mesmo, tinham armamentos pesados e era muito difícil combatê-los, lembro de um medo constante, de não saber a hora que seríamos atacados”, recorda Antonio.

Outro documento guardado com muito carinho pelo veterano é o Diploma da Medalha de Campanha, por ter ido à guerra pela FEB. A medalha mesmo, infelizmente, se perdeu ao longo do tempo.

Seu Antonio destaca mais de uma vez a importância do Exército dos Estados Unidos no treinamento antes dos conflitos. A FEB estava subordinada aos norte-americanos e teve seus militares treinados lá mesmo, por eles, antes de irem a campo.

“Aqui no Brasil não tínhamos recebido treinamento nenhum. Se fôssemos pra batalha assim que chegássemos, seríamos liquidados rapidamente, seria um desastre”, lembra Antonio. Conforme o governo morreram 468 brasileiros no campo de batalha.

Seu Antonio também foi um dos brasileiros da FEB que visitaram e receberam a benção do Papa Pio XII no Vaticano após o término de guerra, no histórico 8 de maio, o Dia da Vitória . “Tivemos muito tempo livre depois que tudo acabou, aí fomos pra Roma e lá pude ver o Papa”.

No meio de nossa conversa, Valdimir encontra perdido em meio às caixas de recordação o brasão da FEB, uma cobra fumando um cachimbo. Esse símbolo é uma referência ao ditado famoso antes de o Brasil se posicionar ao lado dos Aliados, de que o Brasil só iria pra guerra se uma cobra fumasse. “Pois é, a cobra fumou”, disse Antonio mostrando o brasão, que ficava preso no braço. Foi daí que nasceu também a expressão usada até hoje “a cobra vai fumar”, quando algo inesperado vai acontecer.

De volta ao Brasil, em agosto de 1945, Antonio, um veterano de guerra, ferido em combate, foi dispensado com uma mão na frente e outra atrás, em pleno dia 25 de agosto, Dia do Soldado. “Fiquei muito triste com a forma com que fui tratado. Dei meu sangue pela minha pátria e fui tratado como se não fosse ninguém”.

O ex-combatente é, infelizmente, mais um nessa triste estatística de abandono pós-guerra. A maioria dos militares da FEB foi deixada à própria sorte, sem renda. “O governo precisava de contingente para guerra e, depois que acabou, quis se livrar rapidamente daquele gasto. Além disso, vivíamos o período ditatorial do governo getulista, que tinha medo que os militares da FEB quisessem, influenciados pelos americanos, tomar o poder aqui ou promover qualquer tipo de revolução”, explica coronel Wellington Corlet.

Para se ter uma ideia, só na década de 80, durante o regime militar, foi aprovada a pensão para dos veteranos da 2ª Guerra. Algo inimaginável em países como os EUA, onde um veterano de guerra goza de uma série de privilégios. Antonio mesmo, não recebe a pensão.

Logo após a dispensa, ele, sem opção, foi obrigado trabalhar na faxina de prédios públicos de São Paulo. Não muito tempo depois, conseguiu ingressar no Corpo de Bombeiros Militar, onde ficou até se aposentar na década de 70.

Cristão, pregador da palavra, Antonio se mudou várias vezes e já na década de 80 morou em Aquidauana. Rodou mais um pouco pelo Brasil e em 1990 decidiu se instalar de vez em Campo Grande, voltando ao lugar de onde partiu para testemunhar um dos eventos mais importantes da história, que mudou o rumo da humanidade.

Esse grande homem, literalmente falando, ficou desconhecido da Associação dos Veteranos todos esses anos. Foi descoberto graças a nossa reportagem, mais especificamente graças a seu filho, Valdimir, que nos procurou. “Ouço as histórias de meu pai desde criança. Ele não tem do que reclamar da vida, teve e fez de tudo”, diz o filho.

Agora, somando seu Antonio, existem, no total, sete veteranos da 2ª Guerra em Mato Grosso do Sul, todos com mais de 95 anos. “São homens que lutaram por reconhecimento a vida toda”, relata Wellington.

Escrevendo essas últimas linhas, carregando ainda a emoção do encontro com esse pedaço da história vivo, na minha frente, sinto o peso da responsabilidade que é dar-lhe a oportunidade de, aos 97 anos, dizer que existe. A 2ª Guerra Mundial silenciou mais de 60 milhões de bocas, não é justo permitir o silêncio de quem sobreviveu.

 “Eu sinto muito orgulho de ter servido o meu pais na guerra”, diz Seu Antonio. Posso dizer com toda certeza do mundo, nós sentimos mais ainda. Obrigado pelos seus serviços!

Fonte: Campo Grande News(Fotos: Silas Lima)

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