Artigo: Quem escreve vive de quê?* – Por Dr. André Balbi

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Henrique, meu filho, é “médico” de palavras. Cui­da do que escreve e do que lê como nós cuidamos dos nossos pacientes. As pala­vras procuram o Henrique para serem tratadas. De li­teratura é o que mais gosta e de cultura em geral entende muito. Conversar com ele tentando acompanhar seu raciocínio é como andar na montanha russa do pensa­mento. Sem medo, entretan­to

Semana passada escreveu um texto com o título acima. Eu, admirado, como um cirur­gião que precisa operar um belo corpo, reproduzo alguns trechos, com sua permissão.

& #8230; Quem escreve vive de reclamar; de sofrer… quem es­creve vive do jeito que dá, de qualquer jeito, de jeito manei­ra. Quem escreve vive de tra­dução ou de favor; vive do jeito

que quer ou do jeito que conse­gue… Quem escreve vive atrás de assunto; quem escreve vive de editar; quem escreve vive de ser lido… Vive de viajar, ex­terna ou internamente, quem escreve; quem escreve vive de morrer um pouco a cada dia, só para viver um dia novo, só para viver aquele dia. Quem escreve vive de elaborar livro, de lapidar poema, de rabiscar; quem escreve vive de produzir laudo, de contar laudas, de

louvar a sorte; quem escreve vive de filosofar, de redigir… quem escreve vive de ver filme ou peça de teatro e de chorar quando se vê na história, ou pior, de quando não se vê… Quem escreve vive de se virar… Quem escreve vive de intro­dução, instalação do conflito, desenvolvimento, desenlace e encerramento. Quem escreve vive de procurar uma chave de ouro. Quem escreve vive de refrão… Quem escreve vive de brincadeira. Vive de medici­na, advocacia, pilotar avião, catar latinha, roubar salgado, vender miçanga, afanar livro, pagar prestação. Quem escre­ve vive de novo, e de novo, e de novo. Quem escreve vive de encontrar maneiras de es­crever. De encontrar razões. De esquecê-las. De ignorá-las. Quem escreve vive de modo

que, se escrita, sua vida va­lesse a pena ser lida… Quem escreve vive dos outros. Da pele dos outros, na pele dos outros. Quem escreve vive de ler. De contar. De cantar. De reler, de reescrever. Quem escreve vive de escrever. Ou não: quem escreve vive, só. E vice-versa.

Para dar o último ponto de médico clínico na cirur­gia que fiz neste lindo texto, me atrevo a concluir: quem escreve, Henrique, vive de viver.

*texto original: www. freiodemao.wordpress.com

 

 **Dr André Balbi é médico nefrologista, professor adjunto de Nefrologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) e atual Superintendente do HCFMB.

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