Artigo: De coração – Por Ana Vieira Pereira

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Na época em que se falava latim, cor, o coração, era a sede do conhecimento humano. Tudo ali se resolvia e se firmava. Se batia no coração, era porque valia a pena. Se passava por dentro dele, era porque valia a pena. E tudo o que valia a pena se guardava do lado esquerdo do peito. As evidências são muitas, e as que vou apresentar são todas etimológicas. De cor (que era, portanto, coração) surgiu coraticum, coragem, a qualidade que mora no coração. E surgiu também cordatus, que é aquele que tem prudência. E ainda concordar e, que são dois corações que estão juntos. Concordam. Poderia você pensar que concordar fosse duas pessoas dizerem sim (ou não, se o caso for de discórdia) para uma coisa. Terem a mesma opinião.

A mesma percepção. Concordarem em ir pela esquerda, ou pela direita, ou de mãos dadas, ou fingindo nem se conhecerem. Pois nada disso. Concordar é mais sério e mais profundo. Não vem da razão nem do pensamento. Vem do interior dessa cavidade maltratada que é esse nosso músculo único, de aspecto único, de capacidades únicas. Se o seu, aí dentro do peito dando pinote, está junto do coração da pessoa ao seu lado – é porque bate em sintonia com ele, é porque se reconhece na pele do outro rosto, é porque sem nenhum motivo explicável você sabe que aquilo que o outro ao seu lado disser, você dirá também. Aquilo que o outro ao seu lado sentir, você sentirá também. Sem pensar nem estabelecer nada. E, aí, você concorda com a pessoa ao seu lado, e ela vice-versa, os dois um tanto abobados pela vida parecer assim tão perfeita.

Concordar não é concordar (sic) sobre coisas, situações, opiniões, roteiros, planos. Concordar é saber que seu coração está junto do coração do outro, e que aquilo que você fizer ao coração do outro, fará também ao seu próprio, porque eles estão juntos, e juntos semearão os campos do futuro. Quando seguem cada um para seu lado, não é que tenham tido ideias contrárias. É que seus corações avançaram por caminhos diferentes, e por isso discordaram. Agora você pensou “poxa que pena”? Pois não precisa. Porque nem todos os corações concordam, e aqueles que se “vestem de concórdia” estão apenas vestidos – nada são. Faltou-lhes abrir a porta do sangue, permitir-se todos os ventríloquos. Dessa forma, o melhor mesmo é que discordem. O quanto antes, para que os caminhos fiquem abertos e claros, ainda que distintos.

* Ana Vieira Pereira é escritora e coordena o espaço Quinta Palavra

Fonte: Jornal Leia Notícias

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